Sociedade
Na carrinha de apoio do “Goelas” nenhum peregrino fica com sede
Vítor Ruivo diz que retorno é emocional e humano
A história de Vítor Ruivo, antigo comerciante de fruta de Leiria agora reformado, é um testemunho da generosidade e da empatia que floresce nas margens das rotas de peregrinação.
Desde há quatro anos, quando o calendário se aproxima do dia 13 de Maio, o "Goelas", como também é conhecido, rouba tempo à família e aos afazeres para se dedicar, de forma gratuita, a oferecer água e fruta aos peregrinos que se dirigem para Fátima.
É a sua forma de honrar um sentimento que conheceu nas suas próprias peregrinações, retribuindo a bondade que recebeu e mantendo vivo o espírito de fraternidade que define quem caminha por fé ou por desafio.
O acto radica de uma experiência pessoal e espiritual profunda vivida durante o seu próprio percurso, quando percorreu o Caminho de Santiago, motivado por uma promessa relacionada com um amigo que se encontrava doente.
"A minha motivação mistura um sentimento de fé com um desafio pessoal", conta.
Vítor recorda-se de ter passado pela zona de Barcelos onde, em frente a uma casa, sem que alguém estivesse presente, havia comida e bebida à disposição, acompanhadas por uma mensagem acolhedora: "se és peregrino, sente-te bem que estás na casa de um peregrino".
Apesar de a promessa não ter sido atendida - infelizmente o amigo morreu -, aquele gesto de confiança e partilha desinteressada marcou-o de tal forma que decidiu replicá-lo na cidade natal, concretizando o "sonho antigo" de ajudar quem passa cansado e com sede.
A carrinha de Vítor está estacionada na exigente subida antes de Santa Catarina da Serra, um local onde o cansaço dos peregrinos é mais evidente.
Na manhã do dia 10 de Maio, estava com o tempo contado: era a primeira Comunhão do neto, mas os peregrinos não ficaram sem apoio, pois garantiu um substituto.
"É um senhor da zona que conheci nas redes sociais e que se voluntariou", explica.
A recompensa que retira, sublinha, não é financeira - faz mesmo questão de recusar qualquer pagamento, mesmo quando os peregrinos insistem em oferecer dinheiro, apesar dos cartazes que colocou a anunciar que é tudo gratuito.
O retorno é emocional e humano.
"As pessoas agradecem, umas dão abraços e também se comovem, tal como eu." Recentemente, um grupo de Vila do Conde dedicou-lhe uma canção. "Até me chegaram as lágrimas", conta.
Vítor está grato a quem o ajuda na missão.
Compra a água a uma empresa que lhe faz um "preço razoável" e, normalmente, é ele quem patrocina a fruta, mas este ano os seus antigos fornecedores doaram a totalidade da fruta.
Aos 72 anos, persiste em peregrinar todos os anos.
Tomou-lhe o gosto quando tinha mais de 60 e já fez vários Caminhos de Santiago.
Partiu de Fátima rumo à Galiza, trilhou o Caminho da Costa a partir da Sé do Porto e, mais recentemente, palmilhou o percurso de Valença a Finisterra, na companhia da filha.
Embora não se considere uma pessoa "muito religiosa", admite que estas jornadas — solitárias ou partilhadas — vão muito além da prática religiosa convencional, transformando-se num exercício de introspecção.
"Naquele espaço, a gente pensa a vida. Pensa muita coisa... Sentimos que há alguma coisa noutro plano. É muito espiritual!"