Abertura

No país do pinhal, já falta pinho para a indústria do mobiliário

18 nov 2021 19:18

Alerta | A região e o pinhal sempre tiveram uma ligação forte, que se confundia com a identidade local. Os pinheiros pareciam omnipresentes na paisagem, porém na última década, os pinhais quase desapareceram

no-pais-do-pinhal-ja-falta-pinho-para-a-industria-do-mobiliario
A principal razão para o desaparecimento dos pinhais? "Corta-se e jamais se repõe.”
Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

Ao fazer um passeio fora das cidades, para onde quer que olhemos, parece que o pinhal à beira-mar plantado, imagem de marca ficcionada de Portugal, ainda existe.

Sim, há árvores a perder de vista, mas muito poucas delas são pinheiros, bravos ou mansos. Ou dito de outra forma, Portugal já quase não tem pinhais.

A situação é tão grave que, no mês passado, a Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP) fez uma reunião urgente com os associados para discutir soluções para a falta de pinho para a construção de mobiliário.

Boa parte das empresas está a importar a madeira de França e Espanha, com custos exponencialmente aumentados pela escalada do preço dos combustíveis, e muitas já encerraram.

Segundo o Centro Pinus, Portugal importou no ano passado 57% do pinho utilizado pela indústria.

Há desilusão e revolta na voz de Manuel Duarte. “Há 15 anos, investi cerca de quatro milhões de euros em máquinas e num novo pavilhão e isso deu-nos capacidade concorrencial”, recorda.

Agora, porém, o perigo vem dos custos acrescidos de produção com a aquisição de matéria-prima.

“O pinho nacional foi desbaratado pela indústria de pellets e para paletes. Resta-nos comprar mais caro em França e Espanha. As empresas de mobiliário correm o risco de falir devido aos preços da madeira e à especulação”, assevera.

O empresário do sector do mobiliário, sediado em Vilar dos Prazeres (Ourém), adianta que, na “capital do móvel” da região, para piorar a situação, a matéria-prima demora, em alguns casos, dois meses a ser entregue e o preço será sempre o praticado quando a mercadoria chega.

“Há-de ser o que Deus quiser”, diz, salientando que, para si, a maior preocupação são as 40 pessoas a quem tem de pagar salários e dar o que fazer. “Enquanto isso, tenho de pagar impostos porque, se não o fizer, o Estado vem logo bater-me à porta!”

Destaque
Portugal importou no ano passado 57% do pinho utilizado pela indústria nacional
Fonte: Centro Pinus

Como foi que aqui chegámos?
O escritor e ensaísta Eduardo do Prado Coelho escreveu que a língua portuguesa é um idioma que nasceu sussurrado, por entre os pinheiros, junto ao mar.

O que nos leva à dúvida, se os pinheiros e as suas plantações são tão omnipresentes na nossa portugalidade, como foi que chegámos a esta situação?

Os fogos florestais que redobraram de intensidade e consumiram cada vez mais área desde os anos 80, vêm-nos imediatamente à mente. Mas serão eles a causa do fim dos pinhais? 

"O menor problema na falta de madeira de pinho são os incêndios!", garante Pedro Serra Ramos, presidente da Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente (ANEFA).

Sim, é verdade que largas áreas de plantação de pinheiros desapareceram feitos em cinza, mas tudo isso poderia ter sido acautelado.

“Desde 2005 que a ANEFA chama a atenção para a principal razão: corta-se e jamais se repõe.”

O problema agudiza-se quando 97% da mata está nas mãos dos privados, que, compreensivelmente pretende ter lucro com ela.

Desde 1990
Ardeu mais área verde do que a que existe hoje

Em três décadas, arderam 3,9 milhões de hectares de matas e plantações e existem 3,2 milhões de hectares de mancha verde actualmente. Destes, 845 mil hectares são de eucaliptos, não contando os “matos”, nome dado à mistura de pinheiro e eucalipto que, normalmente, aparece desordenada, após os incêndios.
Sobreiro: 720 mil hectares.
Pinheiro-bravo: 713 mil hectares.

Nota: o último censo do ICNF e Ministério da Agricultura é de 2015 e não contabiliza as áreas perdidas nos fogos de 2017, nem a replantação e propagação natural do eucalipto
Este conteúdo é exclusivo para assinantes

Sabia que pode ser assinante do JORNAL DE LEIRIA por 5 cêntimos por dia?

Não perca a oportunidade de ter nas suas mãos e sem restrições o retrato diário do que se passa em Leiria. Junte-se a nós e dê o seu apoio ao jornalismo de referência do Jornal de Leiria. Torne-se nosso assinante.

Já é assinante? Inicie aqui
ASSINE JÁ