Abertura

Novos povoadores dão vida ao centro histórico de Leiria

15 jul 2021 13:10

Depois de anos de abandono, a zona histórica de Leiria ganhou, nos últimos anos, mais dinâmica, com a reabilitação de imóveis que está agora a atrair novos moradores. Mas, há ainda muito a fazer.

Maria Anabela Silva

Nasceu, cresceu e viveu todos os seus 73 anos de vida no centro histórico de Leiria, sempre na Rua Eça de Queirós, paredes meias com a Sé. Fernanda Sobreira assistiu, por isso, às mudanças de dinâmica que esta zona da cidade sofreu nas últimas décadas.

Das ruas cheias de crianças dos tempos meninice à partida de muitos da sua geração, que foram estudar para Lisboa ou para Coimbra e que já não regressaram, até à saída dos pais desses jovens, que trocaram o centro da cidade por vivendas na periferia ou por novas urbanizações, num processo que despovoou a zona antiga de Leiria.

A professora Fernanda resistiu sempre, mesmo quando o coração lhe doía por ver as casas vazias de gente e a cair de abandono. Chegou a perder a esperança de ver renascer o seu “querido” centro histórico.

Nesses tempos, quando na rua vivia apenas a sua família e a vizinha, “a D. Alcina”, sentia “medo” de sair à noite, até para percorrer a curta distância que separa a casa onde reside da Praça Rodrigues Lobo. Foi preciso chegar a septuagenária para voltar a ver crianças a viver no centro histórico e para sentir, outra vez, “o ambiente de bairro”.

“Se há dez anos me dissessem que isto ia acontecer, não acreditava. Dava dó andar pelas ruas. Hoje, temos gente nova a morar. Já se sente outra vida”, constata Fernanda Sobreira, enquanto vai desfiando exemplos de prédios recuperados nos últimos anos e já ocupados com novos residentes.

Na rua onde vive, por exemplo, a sua antiga casa, que é agora do filho Mário, foi reabilitada e está “totalmente” ocupada. “Mais apartamentos tivesse e mais arrendava”, diz, contando que, quando um dos espaços ficou vago, o filho colocou um anúncio no facebook e “numa hora” recebeu cerca de “800 mensagens” com pedidos para ver a casa.

Uns metros mais à frente, na mesma rua, os 19 estúdios de um prédio recentemente recuperado estão também todos ocupados. É aí que vive Diana Marques, de 22 anos, com o namorado, Francisco Almeida, de 23.

Depois de oito anos emigrada na Alemanha, a jovem mudou-se há um ano para Leiria, onde residem também as irmãs. Inicialmente, o casal ainda morou junto ao 'Parque do Avião', mas acabou por se mudar para o centro histórico.

“Conseguimos uma renda mais em conta e o contrato inclui também serviço de lavandaria”, explica Diana, que, tal como Francisco, trabalha na restauração nesta zona da cidade. “Aqui, é tudo perto”, acrescenta, sublinhado também a “boa” localização do apartamento, que “tem vista para o castelo”.

“Uma boa zona para viver”

A centralidade, o “bom ambiente” e a proximidade com vários pontos turísticos foram factores que atraíram Eric Rogério ao centro histórico, para onde se mudou há poucos meses. Natural de São Paulo (Brasil) veio para Leiria em 2019, para “estar mais perto da família” - a mãe vive na Marinha Grande. Trabalha na Roca, em Colmeias, e partilha com um amigo um estúdio na 'rua Direita'. “É uma boa zona para viver, central e ainda se conseguem preços acessíveis”, diz o jovem de 20 anos.

Foi também a centralidade que mais pesou na decisão de Paulo Machado de se mudar para o centro histórico, há perto de cinco anos. Vive ao lado da antiga Igreja da Misericórdia, agora transformada em Centro de Diálogo Intercultural (CDIL), com a mulher e os dois filhos, de um e quatro anos. A esposa trabalha na Segurança Social, “a dez minutos a pé de casa”.

As crianças frequentam a creche e o jardim de infância do Ninho, junto à Sé, e Paulo, que até há pouco tempo explorou um café na Praça Rodrigues Lobo, será, em breve, funcionário na escola Domingos Sequeira.

“É tudo muito próximo. Não precisamos de tirar o carro para as nossas deslocações diárias e ganhamos muito tempo, que se traduz em qualidade de vida”, reconhece Paulo Machado, que, apesar da curta experiência como morador nesta zona da cidade, diz sentir “sinais de mudança”, com a reabilitação de “muitos edifícios” e a fixação de novos moradores.

“Ainda recentemente houve um casal com um bebé que se mudou para uma casa aqui em frente”, exemplifica.

Mais de 50 projectos em análise

Nos últimos cinco anos, a Câmara de Leiria aprovou 49 projectos de reabilitação e/ou de edifícios localizados dentro da Área de Reabilitação Urbana (ARU) da cidade de Leiria, que abrange a zona compreendida entre a Rua dos Mártires ('estrada da Marinha'), Avenida 25 de Abril, ponte Hintze Ribeiro e Bairro dos Anjos.

Durante esse período, ficaram concluídas 51 obras, sendo que, só nos últimos três anos, os serviços municipais emitiram 44 alvarás. Segundo Rita Coutinho, vereadora do Urbanismo, a maioria dessas autorizações para a execução de trabalhos envolve a reabilitação total de prédios. Apenas “uma pequena parte” diz respeito só a fracções.

Presentemente, estão em análise na Câmara 55 projectos para a zona abrangida por aquela ARU. Olhando especificamente para a parte mais antiga da cidade, os dados facultados ao JORNAL DE LEIRIA indicam que, nos últimos cinco anos, foram recuperados 20 edifícios na zona envolvente à ‘rua direita’, encontrando- se em análise 24 projectos de intervenção para essa área.

Procura “muito superior” à oferta

“Há uns anos, ninguém queria viver no centro histórico. Hoje, está mais apetecível. A procura é muito superior à oferta”, constata Estefânio Martins, da imobiliária Petro Domus. O agente conta que, quando têm apartamentos para arrendar nessa zona da cidade, nem sequer os colocam “na internet”, canalizando-os para responder à lista de espera.

Também na Campinoise há clientes à espera. Foi assim com a Casa do Arco, junto à Igreja da Misericórdia, que “muito antes” de concluídas as obras, em Maio, já tinha todos os apartamentos reservados.

Entretanto, a empresa iniciou a recuperação de um outro edifício na Praça Rodrigues Lobo que tem já três clientes em espera, apesar de se prever que as obras só fiquem concluídas dentro de dois anos, revela Sofia Ferreira, gestora de negócios da Campinoise, empresa responsável pela reabilitação de vários edifícios na zona histórica (antiga Tipografia Barata, edifício junto miradouro e um outro próximo da GNR), trabalhando quase exclusivamente para o mercado do arrendamento.

“Para vender, teríamos de praticar preços muito elevados, pela qualidade que empregamos às nossas reabilitações. Com o arrendamento, a rentabilidade é mais garantida”, alega a gestora, referindo que entre os seus clientes estão essencialmente “casais acima dos 35 anos já com filhos e que vêm para ficar”, não havendo, por isso, rotatividade no arrendamento”.

Os edifícios com estúdios são procurados por jovens, muitos deles estrangeiros, que se fixaram recentemente na cidade e que procuram espaços mais pequenos e a preços mais acessíveis, explica José Carvalho, gerente da Recanto do Lis, imobiliária que faz a gestão de um prédio desses existente na rua Direita, onde vive Éric Rogério, todo ele ocupado.

“O último, acabou de ficar reservado”, conta o gerente ao JORNAL DE LEIRIA, revelando que o investidor francês com o qual trabalha tem em construção mais dois edifícios do género para arrendamento.

Esse investidor foi também responsável pela recuperação do prédio em frente à Sé, denominado por Beira Litoral, inicialmente reabilitado para alojamento turístico. “Mudámos a utilização.

Não estava a ser rentável daquela forma e optámos pelo arrendamento. Agora está a correr bem”, refere José Carvalho, que se manifesta convicto que a dinâmica de recuperação do centro histórico vai continuar. Até porque, como frisa Sofia Ferreira, “ainda há muito que recuperar”.

Ainda há “muito para fazer”

Satisfeita com o caminho já percorrido, que permitiu “termos hoje um centro histórico apetecível”, a vereadora do Urbanismo, Rita Coutinho, reconhece, no entanto, que há ainda “muito para fazer” até se chegar ao “patamar que se deseja”.

“A nossa política passa por repensar/ projectar um centro histórico mais acolhedor, quer para os jovens quer para as famílias. Que respeite as pessoas que o habitem, que se deixe apropriar por elas”, defende a vereadora, que acredita que os Censos 2021 irão já reflectir o aumento da população no centro histórico, fruto da dinâmica dos últimos anos.

“Muitas das reabilitações mantêm o uso habitacional, gerando, na maioria dos casos, aumento de número de fogos”, que se tem “traduzido em novos moradores”.

Essa é também a convicção de José Cunha, presidente da União de Freguesias de Leiria, Pousos, Barreiras e Cortes, que tem ganho fregueses novos naquela zona da cidade.

“Quando por ali circulo, vejo muitos rostos que não conheço e apercebo-me que as casas estão habitadas. Nota-se que há mais vida no centro histórico, que também se reflecte na segurança. Antes, era um barril de pólvora, com casas devolutas e ocupações indevidas, Hoje está, sem dúvida, melhor, mas ainda é pre ciso mais”, conclui o autarca.

Palavra de vereadora: Município com “atitude pró-activa
 
Segundo a vereadora do Urbanismo da Câmara de Leiria, Rita Coutinho, a estratégia de reabilitação do centro histórico tem “procurado conjugar a reabilitação do edificado, de iniciativa maioritariamente privada, com a reabilitação do espaço público”, com o Município a assumir “uma atitude pro-activa”, com a criação de mecanismos de incentivo local.
Aos benefícios de âmbito nacional (isenções de IMI, IMT e redução da taxa de IVA), a autarquia juntou apoios à reabilitação, como a isenção de pagamento das taxas urbanísticas e a definição de taxas de minoração e de majoração do IMI (no primeiro caso para prédios reabilitados e no segundo para os devolutos).
Rita Coutinho refere ainda o “acompanhamento na elaboração dos projectos”, feito pela Câmara, “com reuniões com os vários intervenientes no processo de reabilitação (onde são informadas as regras de intervenção no edificado e os incentivos disponíveis, desde o ante-projecto até ao acompanhamento de obra) e interligação com as entidades que tutelam o património”.
De acordo com a vereadora, “é efectuada a articulação dos projectos de reabilitação com a Direcção-Regional de Cultura do Centro, muitas vezes ainda em fase de elaboração do projecto, de modo a facilitar e tornar mais célere o processo de licenciamento”.

 

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