Viver

O esqueleto no encontro entre a aldeia e os artistas

7 jun 2021 13:28

Há uma frase polémica e intervenções de que uns gostam e outros não. Mas o projecto Nascentes levou mais à aldeia de Fontes do que um novo circuito artístico inspirado pelo rio Lis. O que fica da experiência?

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Apresentação da quinta instalação, a 28 de Maio, com a presença da ministra da Cultura
Ricardo Graça

Sexta-feira, 28 de Maio, a meio da tarde, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, está na apresentação da quinta e última instalação do projecto Nascentes, junto à grota do rio Lis, acompanhada por artistas, músicos e habitantes da aldeia de Fontes, todos posicionados à volta de um contentor casa de banho, preexistente no local, fechado à chave, um mono, aproveitado pelo pintor Leonardo Rito como suporte para a intervenção pictórica a partir do tema “A organização social”, em que se destaca, ao centro, no peito de um corpo negro ladeado por um esqueleto, a frase que parece inviabilizar o consenso no acolhimento da obra: “Death is not the end”. A morte não é o fim.

Durante cinco semanas consecutivas, o projecto Nascentes, promovido pela cooperativa Ccer Mais, casa da editora Omnichord Records, colocou no quotidiano das Fontes, com o apoio do JORNAL DE LEIRIA, aproximadamente três dezenas de artistas, músicos e investigadores associados à Universidade de Coimbra e ao Santuário de Fátima, com o objectivo de criar um circuito de cinco obras visuais e sonoras, uma por semana, inspiradas no rio Lis, na grota e na própria aldeia, que habitualmente existe escondida do mundo entre montes e terrenos de cultivo. E a componente de Leonardo Rito na instalação Dar cor à dor, executada em colaboração com o fotógrafo Valter Vinagre, é a que está a suscitar maior inquietação, num balanço que é, genericamente, positivo. Muito positivo, mesmo, segundo alguns moradores ouvidos pelo JORNAL DE LEIRIA.

“Para mim, está muito melhor. Aquilo [o contentor] era um monstro que estava ali. Agora, isto é uma aldeia pequena, uns gostam, outros não gostam”, esclarece Ilda Vieira, dos órgãos sociais da Associação Recreativa e Cultural Nascente do Lis. “Quem comenta, acha que não tem muito a ver com o espaço”. É macabro, diz-se.

Para Leonardo Rito, o assunto morre, literalmente, na subjectividade da arte e na interpretação que cada um lhe dá, independente da intenção do autor: “A frase [Death is not the end] é do Bob Dylan. Explicações sobre ela só mesmo ele”.

A população da aldeia também foi convidada para a cerimónia. Foto de Ricardo Graça

Sexta-feira, fica Valter Vinagre com a missão de dirigir-se a Graça Fonseca e ensaiar uma narrativa, entre as muitas leituras possíveis, incluindo, a poluição no rio Lis que ameaça o equilíbrio ecológico, a sustentabilidade e a vida no concelho de Leiria, problema representado metaforicamente pela imagem de um papel com excrementos encontrado ali mesmo, nas imediações da grota. “Este contentor era, por palavras antigas, uma dor de alma, não se percebia porque razão estava cá, durante 10 anos, sem servir, e, digamos, que se nos tornou praticamente impossível fugir dele”. A explicação, aparentemente, é ter sido balneário para provas de BTT, depois encerrado, comido por ferrugem, alvo de danos e vandalismo. O olhar da ministra da Cultura desvia-se, entretanto, até ao lado de lá da linha de água, onde três fotografias em grande formato revelam as entranhas do paralelepípedo: um lavatório, um cilindro, uma base de chuveiro.

Um abafadinho. Ou dois

Na instalação número cinco do projecto Nascentes, a cantora Inês Bernardo (Banda da Catraia) e o compositor e instrumentista César Cardoso (director artístico da Orquestra Jazz de Leiria) são responsáveis pela componente sonora, uma canção alegre, com alguns moradores da aldeia de Fontes a participar no coro. “Sou daqui, moro aqui em cima, e ver os habitantes desta terra tão envolvidos com estes artistas foi uma coisa muito emocionante ao longo destas semanas todas”, diz a finalista do Festival da Canção 2011 à ministra da Cultura, antes de se ouvir o tema Das Fontes só a santa, em que canta que “para lá do Largo da Capela nem tudo é pecado, mas quem passa tem de provar um pouco de abafado”. E “quem diz um, diz dois ou três, que as adegas nunca secam”.

Os habitantes das Fontes, muitos deles, pelo menos, parecem apreciar o novo circuito artístico instalado junto à nascente do rio. E elogiam: de “bonito” a “espectacular”.

Maria Emília Crespo, à direita na imagem. Foto de Ricardo Graça

Maria Emília Crespo, 87 anos, está satisfeita por ver “coisas novas” e tanta gente jovem. “É sinal que gostam disto”, sentencia. “Já aqui estou há 60 e tal anos e nunca vimos assim nada como agora”.

Para Sérgio Sousa, o projecto Nascentes representa “uma mais-valia”. E o pai, Francisco Lopes Sousa, 83 anos, o último guarda-rios nas Fontes, agora aposentado, lembra que o Lis “é uma riqueza”. A preservar.

Novos habitantes

O convívio entre artistas e moradores tem gerado, até, novas amizades. “Estamos sempre todos juntos ao fim de semana, não há distinção”, diz Miguel Sousa, da Associação Recreativa e Cultural Nascente do Lis. E há gente de fora a comprar casa. A iniciativa da Cooperativa Ccer Mais levou “mais alegria” à aldeia, conclui Carla Funina, funcionária do bar do clube.

Para o director artístico do projecto, Gui Garrido, ele próprio um dos novos proprietários de habitação nas Fontes, “há um encontro” entre duas realidades que resulta do “respeito e harmonia” colocados no desenvolvimento do Nascentes. “Muito grato a quem está cá há muitos anos e permite que venham os artistas”, afirma. “Falaremos sempre de uma cultura que tem a ver com responsabilidade social, com civismo, com fraternidade, com igualdade”.

Iniciado a 24 de Abril, o projecto Nascentes funcionou como laboratório criativo, a partir de tertúlias que desencadearam residências artísticas no espaço Serra, na Reixida. Está prevista a edição de um livro e de um podcast.

A tertúlia com a investigadora Anabela Marisa Azul lançou a instalação Você está aqui, pela dupla Sara & André, e o tema Sobre el rio, dos músicos Pedro Pestana e Vasco Silva. Foto de Cláudio Garcia
Depois do debate com Sara Araújo, o artista plástico Leonardo Rito e o fotógrafo Valter Vinagre criaram a instalação Dar cor à dor e a cantora Inês Bernardo, com o compositor César Cardoso, construíram a canção Das Fontes só a santa. Foto de Cláudio Garcia
Lisa Teles e Tiago Baptista apresentaram En.con.tro, e Edgar Valente e João Cabrita compuseram a peça sonora (de)cantador, num tema com Marcela Uchoa. Foto de Cláudio Garcia
Altar é o nome da instalação assinada por Nuno Gaivoto com Ana Battaglia Abreu, acompanhada por Associação Cultural e Recreativa Nascente do Lis, dos músicos Labaq e Pedro Melo Alves. A conversa envolveu Marco Daniel Duarte. Foto de Cláudio Garcia
Miguel Rondon e Paulo Sellmayer são os autores de Jungalhar, onde se pode escutar g94m + 7M, de Surma e João Hasselberg, após reflexão com Susana de Noronha. Foto de Cláudio Garcia
Um altar, um abraço de barro e uma comunidade em círculo
 
São, ao todo, cinco instalações. Para cada uma, uma tertúlia como ponto de início, com uma investigadora ligada à Universidade de Coimbra e um investigador do Santuário de Fátima. Temas: A nascente como criação, o aparecimento do ser humano, o misticismo, a crença e a religião, a organização social e o encontro com os outros. Lugar de reflexão a partir de onde uma dupla de artistas visuais desenvolveu a componente visual e outra dupla, de músicos, gerou a componente sonora.
 
O circuito está instalado junto ao rio Lis, na nascente. O colectivo Til colaborou na concepção de estruturas de suporte à criação artística e boa parte do processo desenvolvido ao longo de cinco semanas desde 24 de Abril está registado em fotografia ou vídeo.
 
Lisa Teles e Tiago Baptista, por exemplo, propõem um trajecto através do arvoredo, para levar o visitante a chegar a um ponto de contemplação, ligeiramente acima da nascente do rio Lis. E utilizam um material natural, o barro, para intervir nas árvores, numa instalação que tem tanto de abraço como de complemento, como quem tapa uma ferida.
 
A dupla Sara & André utiliza sinalética para convidar a ver, ouvir ou, simplesmente, estar. Em Altar, Nuno Gaivoto e Ana Battaglia Abreu recorrem ao dourado para representar o divino. Leonardo Rito e Valter Vinagre intervêm sobre um contentor desocupado e Paulo Sellmayer com Miguel Rondon criam uma estrutura de bancos, posicionados como numa cerimónia, reunião comunitária ou círculo de amigos.
 
Em cada uma das instalações, a peça sonora está disponível para audição através de QR code.

 

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