Viver

O santo, o pintor, o escritor e a “avó do barro”

20 jun 2020 18:40

Ligações | Um retábulo de Santo António e do Menino, pintado por Frei Carlos de Lisboa, pintor do século XVI, criou em Afonso Lopes Vieira a vontade de a descrever em verso. Esse poema inspirou a artesã Helena Maria Ferreira a criar, em barro, cerca de 200 cenas da cumplicidade entre o santo e a criança. A ligação entre os três é um exemplo do trabalho da Leiria Cidade Criativa da Música

Exposição "Cumplicidades"
Exposição "Cumplicidades"
Jacinto Silva Duro
Exposição "Cumplicidades"
Exposição "Cumplicidades"
Jacinto Silva Duro
Exposição "Cumplicidades"
Exposição "Cumplicidades"
Jacinto Silva Duro
Exposição "Cumplicidades"
Exposição "Cumplicidades"
Jacinto Silva Duro
Exposição "Cumplicidades"
Exposição "Cumplicidades"
Jacinto Silva Duro
Jacinto Silva Duro

Inaugurada, no sábado, 13 de Junho, a exposição Cumplicidades é um dos exemplos de estratégia da Leiria Cidade Criativa da Música, no âmbito da Rede das Cidades Criativas da UNESCO. Na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, em Leiria, numa mostra à volta da figura de Santo António, fazem-se pontes e criam-se ligações locais, regionais, nacionais e internacionais.

No espaço, numa primeira fase, casa-se a literatura de Afonso Lopes Vieira, o trabalho em barro de Helena Maria Ferreira e a pintura de Frei Carlos de Lisboa. Haverá ainda, num segundo momento, um conjunto de actividades ligadas a este tema com a participação do Museu de Santo António com a vinda da exposição fotográfica Santo António - de Lisboa e de Pádua para Leiria, de Marc Gulbenkian, autor destas fotos que ilustram um livro de António Mega Ferreira, com o mesmo nome.

Esta é uma história que começou há quatro séculos e com um retábulo saído das mãos de Frei Carlos de Lisboa, pintor do século XVI, que inscreveu a óleo sobre madeira a figura de Santo António e o menino, tornando-o num ícone universal para os católicos.

Essa obra criou na mente de Afonso Lopes Vieira, que a descobriu no Museu de Arte Antiga, a necessidade de descrever, em verso, aquele encontro entre ambos. Chamou-lhe Romance de Santo António.

O poema inspirou a artesã de Leiria Helena Maria Ferreira a criar cerca de 200 cenas “de brincadeira, de amizade, de amor, do quotidiano de um homem bom e uma criança cheia de vida. De cumplicidade entre Santo António e o Menino Jesus”.

Na mostra exposta na biblioteca municipal de Leiria, podemos ver boa parte dessas peças. Celeste Afonso, gestora do projecto Leiria Cidade Criativa da Música da Unesco e coordenadora desta mostra, sublinha o papel dos escritos de Lopes Vieira na criação de peças em barro que ilustram “as tropelias de um menino e a sua cumplicidade com um homem bom”.

A exposição ficará patente até 31 de Agosto.

Criar ligações
O trabalho de Helena Maria ocupa a maior parte da mostra Cumplicidades. E percebe-se porquê.

“É uma excelente ceramista, embora tenha começado muito tarde. Tentámos perceber como criar uma ligação. Sabíamos que Afonso Lopes Vieira tinha uma paixão por Santo António e explorámos esse vínculo. Isto representa a um micro nível a estratégia de uma cidade criativa: olhar para o que se tem e tentar potenciá-lo, criando ligações com o passado, presente e futuro, a nível local, distrital e nacional", refere Celeste Afonso.

Esta mecânica, adianta, pode ser aplicada a todas as formas de expressão artística.

"Santo António era, sobretudo, um 'homem bom' e o que a Helena consegue traduzir é esse homem bom, cheio de bondade. A ternura com que António está com o menino, nas peças, não é a ternura de um santo. É uma cumplicidade sempre presente e a bondade de um homem, uma bondade de pai para filho. Essa cumplicidade permite um foco maior na principal característica do trabalho da dona Helena: a vida e a expressividade das suas peças."

Já o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, recordou, na cerimónia de inaguração, a longa ligação da artesã à vida cultural da cidade e sublinhou que a exposição é um dos eventos que devolvem ao mundo físico os eventos culturais e de outros sectores da sociedade, que, até agora, estavam restritos ao mundo digital, devido à pandemia de Covid-19.

"As nossas vidas fazem-se de cruzamentos, uns mais felizes, outros menos. Este é feliz, pois liga um poema de um escritor de referência da cidade, uma obra de arte e na visão e o trabalho de uma artesã.”

Romance de Santo António
Estava o Senhor Santo António/ Um sermão a decorar,/ Quando o Menino Jesus/ No livro lhe foi poisar,/ Tão bonito e tão alegre/ Que era mesmo de pasmar./ - Menino, olhe que amanhã / Tenho muito que pregar;/ Andam as almas perdidas, / Anda o demónio a tentar,/ Para vencer o demónio/ Tenho muito que estudar./ - António, tanta leitura/ Vai os olhos cansar,/ Nunca levantas cabeça,/ Nunca vais apanhar ar,/ Leva-me em cima do livro/ Vamos os dois passear./ - Mas, meu Menino,/ Amanhã tenho muito que pregar,/ Se me não ouvirem homens,/ Ouçam-me os peixes do mar./ As almas perdem-se todas/ E eu todas lhas quero dar. -/ António, as almas perdidas/ Sempre as havemos de achar,/ O dia está tão bonito/ Estão os cravos a cheirar,/ Se me não levas ao colo/ Co’os teus papéis vou brincar!
 Afonso Lopes Vieira

A "avó do barro"
Quando a neta tinha três anos, Helena Maria Ferreira, artesão conhecida como Lena do Zé Riscado, queria mostrar-lhe que a principal figura do Natal não é o "Pai Natal", mas o Menino Jesus e o presépio.

"Ela tinha medo do Pai Natal que se fartava", conta a artista. Helena Maria, que, nas suas primeiras peças assinava “Lena Leiria”, não sabia nada de olaria ou santaria. Não sabia o que eram teques, as ferramentas utilizadas para esculpir formas na argila, mas sabia o que queria fazer.

Usou rolos de papel de cozinha - "para não gastar muito barro" - e, à falta de teques, deu formas ao material socorrendo-se de palitos e colheres de chá. Foi assim que das suas mãos saiu um São José, figura que a tradição diz ter sido o pai adoptivo de Jesus Cristo.

"O princípio do meu trabalho, devo-o à minha neta e à minha nora. O seguimento foi a dona Rosina Poças que foi falar com o filho, que foi fa

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