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Pedro Miguel, autor de Uma Cena Ao Centro: "Uma comunidade, quanto mais estrangulada é, mais resiste"

15 set 2018 00:00

As bandas dos anos 90 em livro. Lançamento este sábado na Arquivo, em Leiria.

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Vinte anos depois, por que vale a pena falar das bandas de Leiria que nasceram nos anos 90? 
Porque não estava escrito. Quer dizer, estava escrito no JORNAL DE LEIRIA, mas estava no arquivo. Aconteceu tudo na era pré-internet e não havia um suporte físico contemporâneo. Quando está a acontecer esta segunda vaga, chamemos-lhe assim, achei interessante falar da primeira. 

Muito tempo em arquivos com pó. Alguma surpresa?
Sim, a contemporaneidade. Os mesmos temas, as mesmas preocupações, o mesmo pânico moral. Para algumas autoridades parece que está tudo na mesma. 

Parece que nada mudou? 
Principalmente, quase que ganhou um certo reforço com os últimos acontecimentos, com o Metadança e com o Entremuralhas, e a Igreja da Misericórdia, sendo que na altura não se tocava de todo no centro, salvo raras excepções. E essa era a grande crítica. 

No livro Uma Cena Ao Centro sublinha-se que a maior parte dos concertos aconteciam fora de Leiria cidade. 
Não existia o diálogo que existe hoje com a Câmara e na altura as pessoas viraram-se para outro lado. De repente, numa associação recreativa e nos clubes eram recebidos de braços abertos. E obviamente o circuito ficou por aí. 

Os momentos mais urbanos aconteciam nas aldeias.
Exactamente. Uma Cena Ao Centro acaba até por ser um título irónico porque foi a periferia que desempenhou o papel de maior importância. 

O livro lista mais de 200 bandas. O que explica esta explosão de criatividade? 
Vários factores, entre os quais a descida do preço dos instrumentos musicais. Com a CEE, abriu o mercado. Alguma pujança económica, também. E o efeito contágio. Se o amigo tem uma banda, também quero ter uma. E não só. A auto-estrada entre Lisboa e Porto abriu nessa altura e de repente quem ia para a universidade ou trabalhar vinha aos fins-de-semana. Aparece um bar como o Opus, que era bastante cosmopolita e vivia muito de pessoal que estava fora durante a semana e trazia uma cassete ou um CD. 

A explosão de bandas reflecte uma abertura de mentalidades? 
Acho que sim. 

Mas não podia ser maior o contraste entre uma sociedade conservadora e uma comunidade de músicos interessados em abrir novos horizontes. 
É sempre assim em todo o lado. Uma comunidade, quanto mais estrangulada é, mais resiste. 

Há traços que caracterizam a geração? 
Uma atitude rebelde. Mais uma vez, é o contexto social que te molda. As bandas da Marinha: muito contestatárias, a crise da indústria vidreira. Nas letras das bandas, mesmo que não explicitamente, havia essa insatisfação.

E as bandas de Leiria, protestavam porquê? 
Bandas de Leiria, cidade, havia poucas, o pessoal era todo dos arredores. Os Phase iam ensaiar à Barosa. Estou a lembrar-me dos Sarna, que estavam muito politizados. Falavam sobre o aborto, com letras bastante focadas em fracturas sociais. Os Alien Squad falavam sobre luta de classes, também. Havia um núcleo que ensaiava na Estação, depois muita banda nas garagens fora da cidade, os próprios Silence 4 foram para a Reixida, depois os Canker da Maceira, os Dramafall nos Marrazes, era tudo aqui à volta. Punk e metal, essencialmente, os Phase vão um bocado mais para o rock shoegaze, e bandas pop realmente era Silence 4 e pouco ma

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