DEPRESSÃO KRISTIN
Pedrógão Grande: 80% das casas afectadas e bombeiros com prejuízo de 720 mil euros
Chove no quartel e bombeiros estão a dormir em tendas
O presidente da Câmara de Pedrógão Grande estimou hoje que 80% das casas do concelho tenham sido afectadas pelo mau tempo.
“Temos milhares de casas afectadas, 80% estão afectadas”, disse à agência Lusa João Marques, adiantando que estão instalados cerca de 3.700 contadores de água no concelho.
Questionado sobre o estado do concelho 11 dias após o impacto da depressão Kristin, o autarca declarou que está um “bocadinho melhor”, notando, contudo, que a ajuda prestada à população ainda “é um socorro muito débil”.
“Estamos a pôr lonas, plásticos, a repor telhas naquelas situações menos graves em que há telhas disponíveis”, explicou o presidente do município, salientando o espírito de entreajuda que permitiu, a muitas famílias, com ajuda de vizinhos resolverem os casos menos graves.
Por outro lado, realçou o trabalho dos funcionários da autarquia, bombeiros, Guarda Nacional Republicana, população, onde se contam muitos estrangeiros, e voluntários que chegam ao concelho.
A título de exemplo, adiantou que um grupo de pessoas oriundas dos Estados Unidos da América está em Pedrógão Grande e, na próxima semana, junta-se outro de cabo-verdianos que estudaram na escola profissional local.
“É um movimento de voluntariado extraordinário”, considerou o autarca.
De acordo com João Marques, o “grande problema” continua a ser a falta de electricidade numa parte do concelho, agravada com furtos de material eléctrico.
“Temos zonas no concelho que já tiveram energia e que deixaram de ter por causa destes roubos”, afirmou, assegurando que as autoridades estão atentas, mas é necessária “vigilância em relação às infraestruturas eléctricas”.
Numa publicação nas redes sociais, o município de Pedrógão Grande manifestou preocupação com situações de furto de “equipamentos essenciais ao funcionamento da rede de distribuição eléctrica”.
“Estes furtos têm provocado novas interrupções no fornecimento de energia em zonas já recuperadas, agravando os transtornos para a população”, lê-se na publicação, que pede à população uma “vigilância activa”.
João Marques reiterou o pedido de solidariedade, “sobretudo na ajuda de mão de obra e materiais de construção”, para a reconstrução do concelho.
O quartel dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, inoperacional desde a depressão Kristin, tem prejuízos de cerca de 720 mil euros, disse hoje o presidente da associação humanitária, que apela à ajuda monetária para a recuperação.
“Os danos são estruturais, paredes, telhado. Os bombeiros estão a dormir dentro de tendas cedidas pelo INEM [Instituto Nacional de Emergência Médica] dentro do quartel, que se encontra inoperacional”, afirmou Luís David.
Segundo este dirigente, “só existe uma sala onde não chove e é onde está o comando local da Protecção Civil”, alertando para que “dentro de quatro, cinco meses, começa a época dos incêndios”.
Num texto enviado à agência Lusa e publicado nas redes sociais, a associação refere que a depressão Kristin “não foi apenas mais um episódio de mau tempo”, mas “uma ferida aberta no coração de uma instituição que sempre se manteve de pé quando tudo à volta desabava”.
“O quartel ficou gravemente destruído, espaços essenciais tornaram-se inutilizáveis e as condições de trabalho — já duras — tornaram-se indignas de quem dá tudo sem nunca pedir nada em troca”, adianta.
A associação escreve que a recuperação do espaço é superior a meio milhão de euros, reconhecendo ser um valor elevado, para sublinhar, contudo, que o que “está verdadeiramente em causa não se mede em números”.
“Mede-se em vidas humanas, em segundos ganhos, em futuros que não se perderam”, assinala, recordando que “quando o fogo ameaça, quando a estrada se transforma em armadilha, quando o coração falha ou a água invade casas e memórias, ninguém pergunta quanto custa” e chama pelos bombeiros.
Agora, é a vez de os bombeiros pedirem ajuda, com a associação humanitária a sublinhar que “cada donativo, por mais pequeno que pareça, é um tijolo de esperança”.
“Ajudar a recuperar o quartel é garantir que, no próximo dia difícil — porque ele virá — os nossos bombeiros estarão prontos, protegidos e operacionais”, adianta.
Lembrando que “Pedrógão Grande sabe o que é perder”, numa alusão aos incêndios de 2017, “mas sabe, acima de tudo, o que é resistir, reconstruir e honrar quem permanece na linha da frente”, a associação acrescenta que ajudar a corporação não é caridade, mas gratidão, justiça e humanidade.