Abertura
Quando lojas do presente são portal para o passado
No distrito de Leiria são vários os espaços comerciais que, de tão antigos, se tornam autênticos museus vivos. Das farmácias de arte nova aos cafés de art déco, não falta comércio com história
Reflectem as mudanças nas modas, nas correntes artísticas, nos pensamentos políticos e as dinâmicas económicas que o País atravessou ao longo de várias décadas, nalguns casos, até durante o último século. São vários os cafés, farmácias, barbearias e tantos outros géneros de lojas que, geração após geração, abrem portas ao público, num misto de espaço comercial e de museu vivo.
Caldas da Rainha, Bombarral, Peniche e Óbidos concentram 14 destes estabelecimentos, que integram a rede Comércio com História.
Casa Varela: antiga mercearia e refúgio de judeus
Datada de 1917, a Casa Varela é o estabelecimento comercial de Caldas da Rainha que há mais anos se mantém na mesma família, conta, orgulhosa, Margarida Varela, neta do fundador. “O negócio foi criado pelo meu avô, Aldeberto Fernandes Tavares, quando regressou da Primeira Grande Guerra. Começou como mercearia, depois passou a vender artigos de ménage”, contextualiza a neta.
“Atravessou um século de extremas alterações, conseguindo sempre adequar-se aos sinais dos tempos”, prossegue Margarida. Não é apenas a fachada da Casa Varela que capta o olhar de quem passa, com muitos pormenores arquitectónicos, de onde se destacam as alcachofras, inspiradas no tecto do altar-mor da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo. “Símbolo de redenção, salvação e vida nova”, como frisa Margarida.
No interior, mantêm-se como desde a primeira hora o balcão e os armários, que suportam tachos, panelas e cerâmicas coloridas. Até à chegada da pandemia, ainda era a sua mãe, Maria Isabel Tavares, filha do fundador, que, com o marido, se ocupava da Casa Varela. Depois da Covid-19, apesar de nunca o ter ambicionado, foi Margarida que passou a atender os clientes. Agora, que assumiu o leme, parece ter-lhe tomado o gosto. Formada em História, dá a conhecer cada recanto desta loja, que também conta o passado do País. “Debaixo deste piso, existe um alçapão.
Era aqui em baixo que se escondia azeite e bacalhau. Naquele tempo, as pessoas tinham mesmo que se proteger”, nota a comerciante, que ao abrir um armário revela uma passagem secreta para uma estreita divisão. “Servia para esconder coisas e pessoas”, explica a lojista, acreditando que se tratava de um esconderijo criado para albergar judeus.
A Casa Varel
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