Abertura

Sá Carneiro: Histórias de um bairro que nunca se livrou do preconceito

9 jan 2020 09:38

Construído para realojar famílias oriundas das ex-colónias, o bairro social de Leiria foi inaugurado há 35 anos. Fomos ouvir quem ali mora desde sempre.

Direcção da Associação de Moradores em frente à nova sede, inaugurada em Novembro
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Fátima Mendonça, que vive no bairro desde o início, está ligada ao atelier de arte do projecto Viver Melhor
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Jovens do bairro reclamam um espaço onde possam conviver
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Amélia Alegria diz que "hoje o estigma de viver no bairro não se sente tanto"
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Bairro foi construído há 35 anos para realojar famílias oriundas das ex-colónias
Bairro foi construído há 35 anos para realojar famílias oriundas das ex-colónias
Ricardo Graça
Maria Anabela Silva

Já passaram 35 anos, mas Fátima Mendonça recorda “como se tivesse sido ontem” o dia em que deixou o antigo Regimento de Artilharia de Leiria (RAL) - onde funciona a esquadra da PSP - para se instalar no Bairro Social de Marrazes, mais tarde baptizado com o nome de Sá Carneiro, o primeiro- ministro que tomou a decisão de o construir. “Chovia muito nesse dia e foi complicado fazer a mudança, mas a alegria de entrar numa casinha só nossa, com uma casa-de-banho própria… É indescritível.”

Fátima e a família – o marido e os dois filhos – mudaram-se a 12 de Março de 1985, semanas depois do início do processo de entrega das habitações às 130 famílias oriundas das antigas colónias que, durante quase uma década, viveram no antigo quartel, em condições “prostituidoradas da integridade humana”, como descrevia um ano antes o JORNAL DE LEIRIA.

“Não vivíamos. Sobrevivíamos”, atesta Fátima Mendonça, nascida em Angola, como quase todas as mais de 600 pessoas com quem partilhou cerca de dez anos da sua vida no antigo quartel. “As casas de banho eram comuns. A luz estava constantemente a falhar. Valiam-nos os candeeiros a petróleo e as velas”, recorda.

A falta de condições de habitabilidade era, contudo, contrabalançada com o espírito de “comunidade” e de união que se gerou entre aquelas pessoas que, fugidas à guerra, acabaram em Leiria, na maioria dos casos, sem nunca antes terem pisado Portugal. Foi assim com Fátima Mendonça e foi também assim como Amélia Alegria.

“Não sou retornada. Não retornei a lugar nenhum. Nunca tinha estado em Portugal e muito menos em Leiria. Não fugi por ter feito algo de mal. Fugi da guerra”, diz Amélia Alegria, de 75 anos, que chegou ao ex-RAL apenas em 1981, cinco anos depois de ter deixado Angola. Antes, esteve alojada na Costa da Caparica e ainda tentou radicar-se com a família no Algarve.

Contudo, perante a dificuldade em arrendar casa - “era muito complicado para os retornados” - acabou por vir parar ao ex-RAL, onde esteve até a família se mudar para o bairro social, também em Março de 1985.Foi, conta, “das últimas, se não a última”, deixar o antigo quartel. “Quis preparar tudo e assegurar que já tinha ligação de água e luz.”

Mas a mudança para uma casa “digna desse nome” não significou, para a generalidade dos antigos 'habitantes' do ex-RAL, o fim das dificuldades. Era um facto que o problema da habitação estava resolvido, mas havia novos obstáculos a vencer, como conseguir emprego e pagar as despesas associadas à habitação.

“Como vou pagar a luz e a renda?”, questionava-se, citado pelo JORNAL DE LEIRIA, um morador no dia da entrega oficial das primeiras primeiras casas no bairro, que teve lugar no d

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