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Salários mais altos e casa garantida levam portugueses além-fronteiras

27 ago 2026 18:05

É para outros países europeus que continua a dirigir-se a maior parte da emigração portuguesa.

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A emigração portuguesa abrandou, mas está longe de desaparecer.

Diferenças salariais expressivas dentro da Europa e ofertas de emprego que resolvem também o problema do alojamento tornam a partida uma conta que continua a fazer sentido para milhares de trabalhadores.

Cerca de 65 mil portugueses terão emigrado em 2024. Foram menos cinco mil do que no ano anterior, mas o número confirma que procurar uma vida profissional fora do País continua longe de ser um fenómeno residual. A diferença está também na forma como se parte.

Para quem já leva um contrato no bolso, ter um quarto ou uma casa assegurados pelo empregador pode retirar da equação uma das maiores incertezas dos primeiros meses: onde viver e quanto pagar por isso.

Europa continua a concentrar as saídas

É para outros países europeus que continua a dirigir-se a maior parte da emigração portuguesa.

Os dados mais recentes do Observatório da Emigração colocam a Suíça à frente dos destinos em 2024, com 12.388 entradas de portugueses, seguida por Espanha, com 11.332. França recebeu 8.088, Alemanha 7.410 e Bélgica 5.471. Aos Países Baixos chegaram 4.795 portugueses e ao Luxemburgo 3.469. No total, quase 1,3 milhões de portugueses emigrados viviam na Europa, cerca de 72% do universo estimado pelo Observatório.

Num mercado em que o custo de arrendar um quarto ou uma casa pode absorver uma fatia importante do rendimento, a procura por trabalho no estrangeiro para portugueses com alojamento deixa de ser apenas uma questão de conveniência.

Passa a fazer parte da conta que determina se mudar de país compensa, sobretudo para quem não dispõe de poupanças suficientes para suportar cauções, rendas e outras despesas antes de receber o primeiro salário.

A diferença começa no salário, mas não acaba aí

Os números ajudam a perceber por que razão uma proposta estrangeira consegue ser difícil de recusar.

Em Portugal, a retribuição mínima mensal garantida está fixada em 920 euros em 2026. Para tornar comparáveis países com diferentes sistemas de pagamento, o Eurostat distribui os 14 pagamentos portugueses pelos 12 meses do ano e chega a um equivalente mensal de 1.073 euros. Na mesma comparação, o salário mínimo atingia 2.295 euros nos Países Baixos, 2.343 na Alemanha, 2.391 na Irlanda e 2.704 no Luxemburgo.

A diferença nominal, porém, não entra toda no bolso. Habitação, impostos, alimentação, transportes e seguros mudam muito de país para país. O próprio Eurostat mostra que as disparidades salariais diminuem quando se corrige o rendimento pelo nível de preços de cada economia. Ainda assim, Portugal permanece no grupo intermédio inferior entre os países da União Europeia com salário mínimo nacional.

A pressão da habitação também já não é apenas um problema dos grandes centros urbanos portugueses. No primeiro trimestre deste ano, Portugal registou a maior subida homóloga dos preços das casas entre os Estados-membros com dados disponíveis, 17,8%, segundo o Eurostat. Para quem pondera uma mudança de emprego, a habitação passou assim de questão secundária a elemento central do rendimento disponível.

Quando o emprego também traz uma casa

Há empregadores europeus que usam o alojamento para tornar uma vaga mais atractiva e facilitar a chegada de trabalhadores de fora.

Não existe uma estatística europeia que permita dizer quantos portugueses partem com casa assegurada, mas as próprias ofertas de emprego mostram que este modelo existe em diferentes actividades. No evento europeu de recrutamento “Seize the Summer with EURES 2026”, dedicado sobretudo ao turismo, hotelaria, restauração e entretenimento, foram registadas mais de 400 oportunidades em vários países europeus.

Nos Países Baixos, por exemplo, uma oferta para ajudante de cozinha anunciada através das Jornadas Europeias do Emprego incluía alojamento assegurado, por um custo mensal entre 300 e 500 euros. Uma outra oferta para soldadores indicava alojamento providenciado pela empresa e transporte entre casa e trabalho quando necessário.

É uma diferença importante. Chegar a um novo país com emprego mas sem residência pode obrigar a estadias temporárias dispendiosas, depósitos iniciais e procura de casa à distância. Quando o empregador assume essa organização, mesmo cobrando renda, desaparece pelo menos parte do risco logístico da mudança.

Mas “casa garantida” não significa necessariamente casa gratuita. É preciso saber, antes de assinar, quanto custa o alojamento, se o quarto é individual ou partilhado, quais as despesas incluídas e o que acontece à residência quando termina o contrato de trabalho.

A Autoridade Europeia do Trabalho recomenda que o alojamento organizado pelo empregador para trabalhadores sazonais garanta condições de vida adequadas, cumpra as normas de saúde e segurança e não tenha uma renda desproporcionada face ao rendimento ou a alternativas semelhantes.

A disputa por trabalhadores

A diferença salarial entre Portugal e outros mercados europeus já tem reflexos do lado de quem tenta recrutar e reter mão-de-obra no distrito.

Entre 2024 e 2025, o número de imigrantes a trabalhar no distrito de Leiria neste contexto desceu de 5.009 para 3.920, sendo os salários mais elevados pagos noutros países europeus apontados entre os factores que ajudam a explicar a perda de trabalhadores.

É o outro lado do mesmo mercado. As empresas da região disputam trabalhadores não apenas entre si ou com empregadores de Lisboa e Porto, mas também, em determinadas profissões, com empresas de outros países. A mobilidade dentro da Europa aproximou mercados de trabalho que continuam muito afastados quando se olha para a remuneração.

Na indústria, construção, hotelaria, restauração, agricultura, transportes e profissões técnicas, a decisão pode depender de mais do que o valor escrito no recibo. Horários, pagamento de horas extraordinárias, duração do contrato, transportes, alojamento e possibilidade de poupar no final do mês contam tanto como o salário bruto.

Partir continua a ser uma conta, não uma garantia

Trabalhar noutro país europeu é hoje administrativamente mais simples para um português, mas a decisão continua a exigir contas feitas antes da viagem.

Enquanto cidadãos da União Europeia, os portugueses podem trabalhar noutro Estado-membro sem necessitar, em regra, de autorização de trabalho e têm direito a tratamento igual ao dos trabalhadores nacionais em matéria de remuneração e condições laborais. Permanências mais longas podem, contudo, implicar registo de residência e há ainda que perceber onde serão pagos impostos e contribuições sociais. A Suíça tem regras próprias, embora exista um acordo de livre circulação com a União Europeia.

O valor que importa, por isso, não é apenas o salário anunciado. É aquilo que sobra depois da renda, alimentação, deslocações, seguros, impostos e viagens a Portugal. Uma oferta de dois mil euros pode valer menos do que parece numa cidade cara. Outra, com um salário semelhante mas alojamento assegurado a preço controlado, pode permitir poupar substancialmente mais.

Foi sempre assim, com números e destinos diferentes. Emigrar continua a ser uma tentativa de encontrar no outro lado da fronteira aquilo que o mercado de trabalho português não consegue oferecer a todos. A novidade é que, numa Europa onde encontrar casa se tornou também um problema laboral, já não basta oferecer mais dinheiro. Para alguns trabalhadores, a proposta que ganha é aquela que diz, logo à partida, quanto se recebe e onde se vai dormir.