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Têm mais de 60 e acabam de gravar um single: o “Rock Ingolês” soa como Verão na Praia do Pedrógão

11 dez 2025 10:00

O primeiro Omnilab para veteranos juntou em Leiria músicos que cresceram a ouvir os Beatles. A canção será lançada em streaming

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Filipe Rocha (director artístico do projecto) com Vítor Salvino, Cristóvão Santos, Rogério Fonseca e Tó Afonso
Ricardo Graça

Um, dois, três, quatro músicos mais antigos do que Mick Jagger? “Não, mas não estamos muito longe”. Juntos na sala de ensaios, somam 288 anos – se o vocalista dos Stones pode, porque não eles? – e o tema que acabam de gravar também tem o charme de outros tempos: vem de uma noite em 1982, na Praia do Pedrógão.

Voz e guitarra, guitarra, baixo e bateria. Cristóvão Santos, Vítor Salvino, Rogério Fonseca e Tó Afonso são as estrelas da primeira residência artística Omnilab para maiores de 60 – por outras palavras, a geração que cresceu a ouvir os Beatles.

Rock Ingolês” fala de avanços no namoro, com paleio que desafia fronteiras. “Vi-te um dia toda nice, cheiravas a pó de rice, estavas mesmo beautiful, you never more me ligaste; but nunca me largaste, you love me bem eu sei, por isso, don't go away”. O original escrito por Cristóvão Santos e Camilo Barata (1954-2019) será lançado nos serviços de streaming através da editora Omnichord, que organiza o Omnilab, a mostrar que algumas coisas são como andar de bicicleta, nunca se esquecem, e que não há idade para sair de cena.

Por compassos que soam a brilhantina, a canção recupera o swing do casaco de cabedal. Cristóvão Santos tinha chegado de Inglaterra e a letra sobre amores de Verão “nasceu de uma brincadeira”, uma roda de amigos, numa casa a caminho do mar.

Nesse ano, álbuns de Supertramp, The Clash e Chicago ocuparam gira-discos na Praia do Pedrógão e no mundo inteiro, a Argentina e o Reino Unido entraram em guerra, Eriksson aterrou no Benfica e em Leiria o CDS conquistou a câmara com Lemos Proença como presidente.

Também em 1982, apareceu o colectivo Pinhal d'El Rei, de música tradicional portuguesa, em que hoje tocam Vítor Salvino e Rogério Fonseca. Já o percurso de Tó Afonso – que nos últimos meses fez mais de meia centena de concertos com grupos de covers – inclui os Barabar e os Gerador, que estão de volta, além de muita estrada com Luís Portugal, o vocalista dos Jafumega.

Cristóvão Santos é o único aposentado da música, mas na viragem dos sixties para os seventies integrou a Álvaro Costa Banda 5 nos bailes de finalistas e colectividades da região, a interpretar versões dos artistas mais famosos. Ainda antes, com a guitarra, viveu outros momentos para contar: autógrafos “na roupa interior das meninas” durante a festa de Natal de um colégio em Fátima e o frente a frente com a polícia, no centro histórico de Leiria, por causa de uma serenata. “Fui preso, a única vez na minha vida”.

Na segunda metade da década de 70, já com a liberdade garantida pela revolução de Abril, é o conjunto Magma, de que Rogério Fonseca fazia parte, que acumula fãs à boleia de êxitos popularizados por Santana, Deep Purple, Barclay James Harvest, King Crimson ou Orchestral Manoeuvres in the Dark. “Tocámos três, quatro anos no casino Riomar, na Vieira, era o nosso sítio”.

A distância no calendário é mais do que o salto tecnológico e, provavelmente, inimaginável para quem só conhece plataformas digitais, backing tracks e tutoriais da internet. “Não havia conservatório”, comenta Vítor Salvino, portanto, para aprender de ouvido, explica Tó Afonso, que mais tarde veio a frequentar a escola do Hot Club de Portugal, “era [correr] a cassete para trás e para a frente”. A dedicação à causa ferve-lhes no sangue e actualmente vêem filhos e netos com igual paixão pela música.

No Omnilab concluído há dias na Black Box de Leiria, os teclados têm assinatura do director artístico do projecto, Filipe Rocha, que faz um balanço “superpositivo” de “uma experiência que ninguém vai esquecer” – e elogia “a entrega” e a “atitude incrível” dos participantes, durante os seis dias do laboratório de criação musical.

“Não estou a preparar para o futuro”, assinala o músico de Sean Riley & The Slowriders e The Legendary Tigerman. “Estou a tentar que sintam orgulho no que fizeram”.

Repetir o Omnilab para maiores de 60 “pode ser um desafio interessante”, considera Filipe Rocha, que aponta “o contacto e o bom ambiente” criado como mais-valia do projecto, que ajuda a sair “do registo” habitual “do dia a dia”.

Próximos passos? “Tenho de perceber o que eles gostariam de fazer ou não”. Numa época em que tantos “cantam sempre a chorar”, os Omnilab veteranos deixam a receita: música boa é “música que é feita com amor”.

Vinil e concerto: as primeiras quatro edições para jovens
 
Ao longo dos primeiros quatro Omnilab, desde 2023, as várias “turmas” gravaram uma versão e um tema original, em cada edição. As dez canções estão agora reunidas em disco e o lançamento do vinil, com o selo da Omnichord, que organiza o Omnilab, acontece neste mês de Dezembro.
 
No próximo dia 20, os jovens entre os 14 e os 21 anos que participaram vão a palco na Black Box, de Leiria. Um concerto especial, com início às 21:30 horas.
 
O álbum inclui versões de Nice Weather For Ducks, Surma, First Breath After Coma, Few Fingers e Bússola e ainda os originais “Invulgar”, “Abyss”, “She Walks On Roses”, “Where To Go” e “The Room”.
 
Em formato de residência, o Omnilab é um laboratório musical com acompanhamento e mentoria de músicos profissionais. Uma semana vivida em conjunto, sem ir a casa.