Sociedade

Viver no Paraíso

27 set 2019 00:00

Os Açores estão na berra, são um mundo de oportunidades, mas continuam a manter muita das suas idiossincrasias intactas. Fomos conhecer pessoas da região que fazem ou fizeram lá vida.

Foto: DR
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O New York Times fez-lhe este ano uma visita. A Forbes apelida-o de “Hawaii do Atlântico”. O Daily Mirror chama-lhe “pedaço do paraíso”. Os Açores estão nas bocas do mundo, é um destino de eleição para cidadãos do mundo inteiro, mas também um mundo de oportunidades. Anda-se na rua e nos trilhos e encontramos alemães e canadianos de sorriso nos lábios. Talvez sintam que encontraram a Atlântida.

É considerado o local mais belo do mundo, o destino com as melhores práticas de protecção do património, está entre os dez destinos mais sustentáveis do mundo, o melhor destino para observação de cetáceos, tem património da UNESCO, reservas da biosfera, enfim, é difícil pedir mais.

E na verdade, nos últimos tempos, vários cidadãos da região de Leiria passaram a residir numa das nove ilhas do arquipélago mais a norte da Macaronésia. Uns foram atrás das paisagens, outros à procura de caça. Uns foram à procura de negócios e outros de paz. Muitos deles encontraram o seu nicho na sociedade e já não voltaram. Outros, andam cá e lá.

Mas, para alguém que não nasceu numa ilha, ser ilhéu por obrigação pode não ser fácil. Ainda por cima “nos Açores, o único lugar do mundo onde falar do tempo não é só fazer conversa”, como sublinha o escritor Joel Neto. As tais quatro estações do ano num dia só ou o rigor do Inverno.

“Chegamos a Maio extenuados, como tantas vezes – a chuva caindo-nos em cima, o vento rugindo por entre os eucaliptos ainda, o frio enregelando-nos as mão ainda, a humidade penetrando-nos nos ossos ainda.”

Podem ser também os mexericos que Vitorino Nemésio relata em Mau tempo no canal. É a dimensão das terras, é a sensação de impotência perante a potência dos elementos. Mas para muitos é ali que se encontra o verdadeiro eu nos mais frequentes momentos de introspecção. Para outros, uma aprendizagem. Outra ainda acharam ali o seu poiso definitivo.

Os Açores como conceito

Foi em 2004 que Rui Caria conheceu a Terceira e logo teve a certeza que era ali que queria ficar. Com a sua “banda de bares” foi tocar às Festas da Praia, da Vitória, e tudo se resumiu a “fascinação”. Sentiu um click. A ilha, com aquela “aproximação ao mar, que para o pescador é pão e para o turista é férias”, tinha tudo que ver com a sua Nazaré natal.

Fez daquele rochedo, onde “o mar invade tudo à volta” o seu ponto de paragem entre as várias viagens que faz para os quatro cantos do globo. Está bem, ali. Não se sente isolado, como há quem defina a vida de ilhéu. Viaja, até, muito mais do que quando residia na Nazaré. “Olho para o mar e vejo o infinito”, sublinha.

“Percebo que quem está perto não vai a lado algum. Já quem está longe… Quando vivia no continente poucas vezes saía. Como era fácil, acabava por não ir. Se vivemos nos Açores vamos, porque se não formos não vamos a lado nenhum. Pega-se no avião e vai-se. Pode parecer estranho, mas é isto mesmo.”

O seu percurso profissional na área da imagem começou em 1990. Estava muito mais ligado à televisão e ao vídeo, mas as cores e as pessoas dos Açores fizeram-no querer chegar mais além na fotografia. “É mais ou menos parecido e a linguagem é a mesma. Fui-me aproximando e despertando o interesse.”

“Costumava dizer nas minhas aulas [é formador certificado pelo IEFP na área da multimédia] que gosto tanto de fotografia que nem lhe toco. Mas depois li, compulsivamente, e estudei, não academicamente. Enfiei-me e posso dizer que é a minha nova paixão. Dá-me mais gosto tirar fotos do que qualquer outra coisa.”

Procura o “inusitado, o que o espanta, o que não se vê” e os Açores são tão ricos... O seu trabalho fotográfico é, hoje, internacionalmente reconhecido pelos editores de importantes sites de fotografia, como a National Geographic, 500px, 1x, Leica Fotografie International e Getty Images. Foi vencedor e finalista de diversos concursos internacionais e as suas fotos estão publicadas em diversos livros internacionais de fotografia.

Em 2016, foi câmara de prata da Federação Europeia de Fotógrafos na categoria de fotojornalismo na competição de fotógrafo europeu do ano, como uma foto na Praia da Vitória, na ilha Terceira. Já este ano venceu o primeiro prémio do Sony World Photography Awards, National Awards, com uma fotografia tirada durante um casamento... na Praia da Vitória.

Na secção Histórias de 28mm, no site da SIC, canal de televisão para o qual trabalha, conta pequenas narrativas das pessoas e lugares que foi cruzando. Colabora, também, com alguns dos principais jornais nacionais e internacionais.Naturalmente, muitas das suas fotos são tiradas nos Açores e na Terceira, em particular. Sim, porque cada ilha tem as suas características, únicas “no linguajar”, “nos hábitos” e “nas pessoas”, umas mais fáceis de meter, outras de manter uma relação.

“Os Açores não existem senão como conceito. Há ilhas separadas por centenas de quilómetros. Em comum há a devoção ao Divino Espírito Santo. É o elo de ligação entre as nove ilhas.”

Este puzzle é “vibrante”, “apaixonante”. “Às vezes, a fotografia não abarca toda esta imensidão. Os lugares são inusitados. Pode estar a fazer Sol enquanto estamos a falar e mal desligue o telefone começar a chover. E a parte da intempérie atrai-me bastante.”

Falemos então do Inverno, “inóspito”. “É tudo mais à flor da pele. As pessoas gritam para o mar.” Aqueles ventos de 80 quilómetros por hora que “não fazem estragos”, porque “até a arquitectura está preparada” para receber os furacões que, mais dia, menos dia, estão de regresso.

“Os açorianos estão habituados a lidar com as tempestades de forma brincalhona, mas com respeito, sem os histerismos das redacções de Lisboa quando se fala de ventos de 200 quilómetros por hora.”

Azeite, alho, cebola e tomate

Em alguns dias especiais, da Terceira avista-se a montanha. “Só vê o Pico quem o merecer”, lá diz o povo. Foi lá que a Taberna do Canal abriu há três anos e meio, na Madalena. O nome é sugestivo e legitima o que é feito na cozinha por Fernando Fernan

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