Viver
Xtinto tem um sonho: “A minha música é muito mais do que uma pessoa, é criação em grupo e em comunidade”
"Em sonhos, é sabido, não se morre" é o segundo LP do rapper com raízes em Caxarias, Ourém, que chegou a ponderar desistir da música
Começou por gravar em 2015: a mixtape Odisseia. O álbum de estreia, no entanto, só chegou em 2023, com o título Latência. Pelo meio, há dois EP – Inacabado e Ventre – e canções como “Pentagrama” ou “Éden”, reproduzidas milhões de vezes nas plataformas digitais.
Para casar o hip-hop com a experimentação sonora, Francisco Santos adoptou o nome xtinto, assim mesmo, com letra minúscula, o que entretanto não diminui o estatuto que alcançou a nível nacional, nos últimos anos. Faz questão de o partilhar: “A minha música é muito isso, xtinto é muito mais do que uma pessoa, não é uma individualidade, é criação em grupo e em comunidade”.
Quase desistir, mas resistir
O novo disco no formato longa duração, disponibilizado esta sexta-feira, 20 de Fevereiro, traz mensagem ainda antes de se revelar aos ouvidos: Em sonhos, é sabido, não se morre. A nota de divulgação anuncia “uma nova etapa criativa” e “um trabalho mais maduro e cinematográfico”, em que o rapper com raízes em Caxarias, Ourém, “reflecte sobre identidade, fragilidade e reconstrução”.
Com concerto de apresentação ao vivo marcado para 11 de Março, no Capitólio, em Lisboa, xtinto diz ao JORNAL DE LEIRIA que o verso escolhido para baptizar o álbum – retirado da canção “Lisboa que amanhece”, de Sérgio Godinho – remete para um período em que chegou a “ponderar desistir da música”.
“Acabei por não morrer para o sonho e fez-me sentido essa frase nessa altura”, comenta. “É interessante alguém nos dizer que em sonhos não se morre”.
Regressou à criação, como quem acorda depois de “morrer” num sonho, pronto para recomeçar, lê-se no texto divulgado pela assessoria de imprensa. “O disco parte dessa ideia de renascimento para explorar temas íntimos e sociais, atravessados por sonhos individuais e colectivos: as raízes, os amigos, a família, a terra natal, o amor, o desamor e a saudade. É um projecto que percorre lugares e estados de espírito, sempre com transparência, vulnerabilidade e uma escrita cada vez mais depurada”.
Caxarias, uma inspiração
Antes de sair por cima, com o apoio de quem o rodeia e mais tempo vivido fora de Lisboa, em Caxarias, a “profissionalização” trouxe-lhe “pressão” e “carga”. O facto de o artista “ser quase um influencer” e “ter de se promover muito”, o modo “como funciona a indústria”, tudo empurrou Francisco Santos para um beco aparentemente com uma única saída. “Queria mesmo mudar de ofício”, admite. “Já não encontrava grande felicidade em criar”.
Resistiu e reencontrou-se. Voltou a escutar Sérgio Godinho. “Uma das minhas maiores inspirações, que ouço desde muito pequeno”. O pioneiro em Portugal? “É capaz de ser verdade”, conclui. “A forma como ele usa a palavra é muito de rapper, a forma de explorar a fonética, a língua”.
Em sonhos, é sabido, não se morre conta com produção de Beiro, Kidonov e Lunn, e participações de iolanda, Ed, João Não e L-Ali. Expande o território sonoro de xtinto, cruzando hip-hop contemporâneo, pop, música alternativa e experimentação. “Também por culpa de todas as pessoas que reuni neste processo”, explica o rapper de Ourém, que fala de “um ambiente muito mais orgânico” que quer preservar para o futuro e dá como exemplo o tema “Felismina”, composto e gravado em banda, em que presta homenagem à avó paterna.
Se logo no primeiro single, “Assunto Meu”, xtinto apresenta uma crítica à apatia colectiva e à indiferença social, com o segundo avanço, “Vento”, mostrou fragilidade e memória. Mas é o tema “Dividir”, lançado esta sexta-feira com um videoclipe em que participa o chef Henrique Sá Pessoa, que reflecte as convicções sociais de xtinto e a valorização da comunidade em oposição à individualidade.
“A comunhão, no geral, é um assunto presente no álbum”, diz ao JORNAL DE LEIRIA. “Essa partilha está sempre muito presente na minha vida”.