Opinião

A distância de Deus, parte 1

14 abr 2026 21:30

Atualmente e à vista do que se tornou a religião nas mãos do homem teocrata e interesseiro, tenho dois problemas: um é intelectual; o outro é, talvez, espiritual

Muitos dos meus colegas da música, odeiam Deus.

Proclamam a sua morte, nem sempre de forma nietzschiana. Desprezam o seu filho, a sua história, a sua mensagem. Eu também já estive ai. Nessa cartilha do heavy metal, do black metal.

Felizmente, no ano letivo de 1992-1993, juntei-me ao Curso de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e, em breve, comecei a deixar de lado os livros de Eliphas Levi, La Vey e Crowley, e a substituí-los pelos de Feuerbach, Nietzsche e Agostinho.

Atualmente e à vista do que se tornou a religião nas mãos do homem teocrata e interesseiro, tenho dois problemas: um é intelectual com o estilo de música que faço e no qual me incluo, em particular, com a sua fação mais extrema e violenta. O outro problema é, talvez, espiritual e radica na diferença com que encaro o comportamento dos homens que “representam” Deus na terra, e a necessidade da fé e do conflito interior que nos pode e deve tornar seres melhores do que aquilo que somos atualmente.

Se, grosso modo, Feuerbach argumentava que Deus é “apenas” (e que apenas) uma projeção feita por nós das nossas melhores qualidades e intenções; se Deus existisse mais que na fé, por assim dizer, de forma mais científica e concreta, e calhasse a ler a Essência do Cristianismo do filosofo alemão, rapidamente concluiria que, ao contrário da tese ateísta/hermenêutica desse livro, o homem é o reflexo mais que negativo de todas as ambições e qualidades divinas.

Apesar de ter sido criado, à semelhança de muitos Portugueses, como Católico, Apostólico Romano, sei de um mundo multirreligioso que não inclui só os monoteísmos. Se os católicos ao branquearam a pedofilia, ao não admitirem a ordenação das mulheres e a persistirem no celibato dos padres estão longe de Deus; o que dizer das teocracias islâmicas, do novo evangelismo Trump e da violência judaica contra Gaza?

Tudo em nome dum Deus que teria vergonha de nós, se algum dia tivesse de nos conhecer.