Opinião
A história por fazer – a da emigração
É fundamental documentar o testemunho desses emigrantes, de várias gerações de emigrantes, dos anos 60 e das décadas seguintes
1- A minha vizinha, a Srª Maria, teve 10 filhos. Todos, com exceção de um, emigraram. Alguns deles, fugidos da pobreza, acabaram também “fugidos” da guerra colonial; outros já abalaram depois da tropa feita.
O mais velho desses dez irmãos raramente vem à sua terra. Ouvi-o uma vez dizer que não tinha muita saudades da “terra do pó e da broa”. O irmão a seguir casou com uma francesa e assumiu desde cedo, quase por completo, a “condição de francês” e poucas vezes veio à sua terra.
Alguns desses 10 irmãos ainda regressaram cedo e com o seu pé de meia construíram uma casa e refizeram a vida em Portugal.
Nunca lhes perguntei como foram os seus começos nas terras para onde emigraram, quase todos nos arredores de Paris, mas sei que a maioria ficou melhor do que se vivesse em Portugal, “na terra do pó e da broa”. Naqueles anos 60 e 70, Portugal era dos países mais pobres da Europa e com maior analfabetismo.
2 - Outro vizinho contou-me, faz pouco tempo ainda, que “passou das boas” no início, nos meados dos anos 60, em França. Não por falta do trabalho, mas porque com as suas poupanças e economias adquiriu um automóvel, depois uma garagem e depois uma casa, com grande admiração, inveja e também desconfiança, disse-me ele, por parte dos vizinhos franceses. Ainda lhe chegaram a por fogo ao seu automóvel...
Outro sustentou uma família que ficou em Portugal e morreu por lá, ainda novo, eram os seus filhos adolescentes.
Outro ainda, sei que morreu de acidente, após poucos anos de trabalho em França. Mas esses poucos anos em França deram direito a uma pensão à sua viúva, de tal modo que lhe permitiu tornar-se uma “viúva rica”, sem necessidade de trabalhar à jorna, de ficar a dever na mercearia, com o suficiente para dar cursos superiores aos seus dois filhos.
E muitos dos que pensavam regressar um dia, acabaram por ficar por lá definitivamente. Porque viram os seu filhos crescer e os seus netos a casarem com francesas, sem vontade e desejo de regressar à terra dos avós... Muitas das vezes os laços quebrados definitivamente.
3 - Esta é uma das “Histórias” que mais está por fazer: a da emigração. É fundamental documentar o testemunho desses emigrantes, de várias gerações de emigrantes, dos anos 60 e das décadas seguintes. Para se conhecer em profundidade o que os fez partir, o que levou alguns a voltar, as condições em que viveram e vivem atualmente.
Não basta falar poeticamente da “Diáspora”. É necessário confrontarmo-nos com o que foi o sacrifício, a dor e a saudade de centenas de milhares de portugueses, por esse mundo fora.