Opinião

A (ir)relevância de lamber um ecrã

27 out 2026 21:00

Num ecossistema digital saturado de fake news e promessas rápidas de sucesso, a volatilidade do meio desincentiva o esforço focado e a atenção paciente ao que é relevante

Num estudo célebre denominado de Teste do Marshmallow da Universidade de Stanford, idealizado e liderado pelo psicólogo Walter Mischel, realizado no final da década de 1960, que consistia num teste que utilizava as guloseimas da preferência de cada criança (incluindo chocolates, bolachas e marshmallows), ao longo dos anos, mais de 550 a 650 crianças participaram em diferentes variantes desta investigação sobre o auto-controlo.

O funcionamento do teste era simples: a criança (de cerca de 4 anos) era deixada sozinha numa sala com um doce à sua frente.

O investigador explicava que tinha de se ausentar (cerca de 15 minutos). Se a criança resistisse e não comesse o doce, seria recompensada com dois doces quando ele voltasse. Se comesse, ficava apenas por aquele.

Mischel demonstrou que o adiamento da gratificação não era apenas uma questão de “força de vontade” inata, mas antes do uso de estratégias cognitivas.

As crianças que conseguiam esperar, utilizavam técnicas de distracção: cobriam os olhos, olhavam para o lado, cantavam ou transformavam o doce numa coisa não comestível (como uma “nuvem” no caso do marshmallow).

Os investigadores acompanharam estes participantes ao longo de décadas. Verificaram que as crianças que conseguiram esperar mais tempo, revelaram na adolescência e vida adulta, melhores resultados académicos, menor índice de massa corporal, maior resiliência ao stress, competências sociais mais robustas e menor propensão para o consumo de drogas.

Transportando as conclusões de Stanford para a era digital actual, o “chocolate” ou marshmallow é o smartphone. O ambiente digital foi desenhado para sabotar o “adiamento da gratificação”.

Cada like, scroll ou notificação, funciona como uma dose imediata de dopamina. É o equivalente a ter um prato infinito de chocolates a piscar à frente de uma criança, sem necessidade de esperar 15 minutos pela recompensa.

O cérebro humano, especialmente o das crianças e adolescentes (cujo córtex pré-frontal ainda está em desenvolvimento), é hiperestimulado a preferir o benefício imediato, atrofiando a capacidade de focar objectivos de longo prazo (como estudar ou ler um livro).

Num ecossistema digital saturado de fake news e promessas rápidas de sucesso, a volatilidade do meio desincentiva o esforço focado e a atenção paciente ao que é relevante.

Por isso, não é bizarra a frase que Steve Jobs proferiu em 1996: “Fizemos os botões do ecrã tão atraentes que as pessoas até vão ter vontade de os lamber.”