Editorial
A luz que falta
Não é apenas uma falha técnica: é também uma falha social
Três semanas depois do forte temporal que dilacerou a nossa região, continuam a existir famílias sem electricidade, a viver entre velas, lanternas, lonas improvisadas e estragos que se acumulam dia após dia. O caso de Vânia - mãe de quatro filhos, com a casa a meter água e avós de 90 anos também às escuras - mostra como a situação deixou de ser excepcional para se tornar insustentável. Já não se trata apenas de prejuízos materiais, mas de um enorme desgaste psicológico e emocional.
O desespero dos moradores é compreensível. Muitos não receberam qualquer visita técnica, outros dependem de geradores emprestados, e há quem tenha perdido todo o recheio do frigorífico, electrodomésticos e as condições mínimas de segurança e conforto. A resposta da E-Redes tem sido criticada pelos autarcas, que falam em falta de estratégia, demora injustificável e ausência de informação fiável. Quando uma parte da população permanece semanas sem luz, não é apenas uma falha técnica: é também uma falha social.
Em paralelo, a entrevista com José Luís Sismeiro, presidente da associação que representa o sector da construção, confirma um cenário ainda menos animador: os estragos no parque habitacional e industrial são tão vastos que a recuperação levará entre um ano e meio e dois anos e meio.
Para um ramo de negócio já limitado pela falta de mão-de-obra, este esforço acrescido vai retirar recursos à construção nova e comprometer o combate à crise da habitação.Quanto ao processo de reconstrução, já em curso, deverá recorrer a novas técnicas e materiais, sobretudo em coberturas e impermeabilizações, para que fique garantida uma maior resistência a fenómenos extremos futuros, alerta o dirigente.
Embora não se possa nem deva depender sistematicamente da boa vontade do próximo quando falham as estruturas formais, nunca é demais destacar, no rescaldo destas semanas, o papel dos inúmeros voluntários, das empresas e dos muitos vizinhos que têm sido decisivos para minimizar os danos e apoiar as pessoas e famílias mais vulneráveis.