Editorial
Para memória futura
Foi como se o mundo tivesse ficado subitamente sem costuras
Chamem-lhe depressão Kristin, tempestade, fúria da natureza ou catástrofe. Pouco importa o nome quando as palavras, por si, já não chegam para abarcar o que se viveu na madrugada do dia 28 de Janeiro, na região de Leiria. O que verdadeiramente conta são as histórias silenciosas de quem passou duas horas intermináveis a escutar o vento em delírio, a soprar com uma força quase irreal, a levantar telhas como se fossem folhas, a tombar chaminés, árvores centenárias, postes de luz e de comunicações, a rasgar coberturas de escolas, pavilhões, empresas, como se o planeta tivesse ficado subitamente sem costuras.
Histórias de quem permaneceu imóvel dentro de casa, abraçado ao medo, enquanto lá fora tudo parecia desfazer-se, como se vários ciclones dançassem ao mesmo tempo, enlouquecidos. De quem viveu tudo sozinho, numa casa de aldeia ou num apartamento citadino, sem possibilidade de pedir socorro, sem sequer uma voz amiga onde pousar a angústia. De quem estendeu o próprio corpo para proteger os filhos do tecto que se desmoronava. De quem perdeu a vida a tentar salvar aquilo que, para si, era o mundo inteiro.
Depois, vieram as manhãs, tardes e noites em suspenso: dois dias sem comunicações, quatro, cinco, seis dias - ou uma eternidade - sem água, sem electricidade, sem o mínimo que torna a vida habitável. Dias de desespero à procura de ajuda, de materiais, de algo que impedisse a chuva de continuar a ferir paredes, equipamentos e sonhos. Dias em que se aqueceu comida com a chama tímida de umas velas. E aquele momento quase milagroso em que se descobriu que numa cadeia de supermercados se podia dar calor a uma sopa.
Mas há também as outras histórias. As de quem, ainda antes do amanhecer, já empunhava a motosserra para libertar estradas, desde civis a bombeiros, militares e agentes das forças de segurança. Dos vizinhos que bateram à porta mal o dia clareou, oferecendo mãos, força, companhia. Dos que foram parar ao hospital depois de cair dos telhados que tentavam salvar. Dos que aproveitaram a desgraça para roubar ou enganar. Mas, sobretudo, dos que, em nome próprio, da sua empresa ou instituição, colocaram à disposição mão-de-obra, dinheiro ou bens materiais, desinteressadamente, para minimizar a ansiedade da recuperação, que se adivinha dolorosa e prolongada.
Estas sim. São as histórias que vão ficar para a História.