Editorial
A triste sina do sobreiro plantado por António Costa
"Faça com que não haja outros 2017"
Uma tarde, em 2017, o fogo dizima a floresta tatuada à nascença na identidade do concelho da Marinha Grande, noutro dia, já em Janeiro do ano seguinte, a comitiva de carros escuros e fatos com gravata detém-se junto à escola Loureiro Botas, na fronteira entre a área urbana e a Mata Nacional de Leiria, sai o primeiro-ministro, pega numa enxada e a obra nasce, ali mesmo – um sobreiro, plantado com as crianças de Vieira de Leiria e baptizado por António Costa à boleia do nome de um dos alunos.
Símbolo do povoamento desejado para o território destruído pelas chamas: diverso e mais resistente.
As notícias da época indicam que os sobreiros não vingaram, como não vingaram a maior parte dos planos para introduzir outras espécies no Pinhal de Leiria.
Na última sexta-feira, outra comitiva de carros escuros e fatos com gravata atravessou a Estrada Atlântica para observar o que fica depois do vento.
Pinheiros, pinheiros e pinheiros caídos por terra ou cortados pela metade, já sem copa.
Da primeira Presidência Aberta, o Presidente da República leva a fotografia do epicentro da tempestade.
Inclui indemnizações por pagar, salteadores da telha perdida que chegam com câmaras de filmar à espera de encontrar na entrada dos estaleiros municipais um remake do sketch "Qual papel?", uma região a reerguer-se desde o minuto zero e gente que não desiste do futuro.
"Faça com que não haja outros 2017".
O sistema existe, mas a troca baseia-se na solidariedade, não no medo.
Tudo o que nos une, mais do que aquilo que nos separa.
Entre 2019, último ano antes dos confinamentos provocados pela Covid, e 2025, a realidade é outra.
Mais população, menos polícia, mais crimes registados no Relatório Anual de Segurança Interna, que, no entanto, explica menos do que o que deixa por explicar.
O que não muda é que a violência doméstica continua no topo (só atrás da condução com álcool) das ocorrências comunicadas às autoridades: 1.117 casos no distrito de Leiria, mais 293 do que em 2019, o equivalente a um acréscimo de 35%.