Opinião
Chamar os Bois pelos nomes
No passado dia 17 de Julho, a Assembleia da República aprovou a revogação da lei que referia o termo violência obstétrica e responsabilizava os profissionais que exercessem práticas não autorizadas, como por exemplo as episiotomias — práticas amplamente em desuso a nível mundial.
O que aconteceu é um retrocesso nos direitos das grávidas e na protecção dos cidadãos.
Não queremos saber do SNS, nem de primar pelas práticas actualizadas e de excelência. Aqui o que interessa é manter a linha de montagem e a produção a seguir.
A baixo custo, de preferência. E claro proteger quem abusa do seu poder. Más práticas, negligência grosseira?
Nada disso acontece nestas classes tão especiais e iluminadas de profissionais.
E quando os profissionais denunciam más práticas de colegas? Então são despedidos, afastados, calados e descredibilizados.
E os que ficam no SNS? Trabalham em condições desumanas.
Para quê? Para entrar em modo sobrevivência e simplesmente agir. E claro com remunerações interessantes para sermos coniventes com um sistema doente e abusador.
Temos de parar de achar que só acontece às mulheres dos outros. Eu posso dizer que fui vítima de violência obstétrica no meu primeiro parto.
Foi-me realizada uma manobra de Kristeller não consentida e absolutamente desnecessária ao trabalho de parto, com consequência de lesões em mim e na minha filha.
Porque não me queixei? Porque ingenuamente acreditei que se aquilo tinha acontecido assim, era porque era o melhor na altura.
Em conversa com profissionais de saúde e após o movimento lançado pela OVO - Observatório de Violência Obstétrica, e após ler relatos semelhantes ao meu, percebi o que efetivamente havia acontecido.
Porque não me queixei?
Porque o período de queixa já havia prescrito. Porque somos um país com uma cultura de silêncio. O que fiz? Assinei as petições e mais uma vez acreditei no sistema.
Acreditei que seria ouvida juntamente com outras mulheres, que não podendo alterar a minha história, poderia contribuir para que outras não sofressem o mesmo.
O que recebemos? Uma grande chapada na cara e mais uma vez a mensagem de "cala-te. Tu não és importante."
Sinto sinceramente que deve haver vacas prenhas em matadouros muito mais respeitadas e com melhor assistência do que as mulheres que hoje vão parir neste país. Vamos continuar a deixar que aconteça?
Nota: No meu segundo parto fui atendida por uma equipa excelente com práticas humanistas. Um bem-haja a todos os bons profissionais deste país que ainda seguram o SNS que o governo quer deixar cair!