Opinião
Código de conduta
É grande a pegada com que marcamos o mundo. Chamamo-la ecológica, mas de Ecologia tem pouco
O primeiro mês deste novo ano começou bastante tumultuoso para o mundo. Com isso, dei por mim a fazer o exercício dos 100 sinónimos de esperança. Mal sabia que o fim desse primeiro mês seria tão particularmente tumultuoso para a nossa região. E muito mais premente se tornaria esta palavra para todos nós. Esperança. De tudo. Porque quase tudo o que tínhamos por garantido se desmoronou. De uma forma ou de outra. Mais ou menos diretamente. E quase instantaneamente. Não por imposições externas, ou melhor, estrangeiras, mas por imposições naturais. Ou talvez não.
É grande a pegada com que marcamos o mundo. Chamamo-la ecológica, mas de Ecologia tem pouco. E isso leva também a pensar noutro tipo de esperança que se pode instalar depois desta tragédia. Que hábitos vamos mudar? Que luz vamos apagar? Que torneira desligar? Que roupa não comprar? Que telemóvel, eletrodoméstico ou carro não trocar? Que mais vamos reutilizar antes de reciclar? Que lixo vamos lixar? Será que estamos mesmo preocupados com o planeta e as suas, que são nossas, alterações climáticas? Elas vão acontecer. Inevitavelmente. Ou não estivéssemos nós na era quaternária do tempo geológico. E por isso, geologicamente esta era atual em que vivemos vai acabar e outra a ela se vai suceder.
A nossa intervenção, a nossa pegada, apenas acelera esse processo. Caricatamente, com o aquecimento global, a Europa vai arrefecer. Porquê? Porque as correntes marítimas profundas, aquelas por onde o pai do Nemo viajou para o procurar, e que são as que mais impacto têm no clima, vão inverter. Atualmente ascendem do Equador até ao Pólo Norte pela nossa costa. E por isso temos um clima temperado.
Mas vai chegar o momento em que vão inverter. E passar a ascender pela costa americana e a descender pela nossa. E Nova Iorque vai ficar com o nosso clima. E nós com o clima deles. Talvez seja por isso que o seu atual presidente procura ignorar este problema. Na esperança de que estas correntes ainda mudem no seu tempo de vida e ele se possa deleitar com banhos de sol no topo na sua torre. Não sei. O que sei é que o que vivemos talvez nos tenha colocado já noutra era, não geológica, mas societal.
Todos juntos somos mais fortes em muitas coisas. Reduzir a nossa pegada individual e coletiva pode ser uma delas. Nos últimos tempos fomos assistindo a várias tragédias climáticas, sentados nos nossos sofás, no conforto do nosso lar. Desta vez calhou-nos vivê-la ao vivo e em direto. Reavivemos, com isso, a esperança de um mundo melhor.
Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990