Opinião
Do produto à solução - a nova vida do software
O valor deixou de estar no brilho da tecnologia em abstrato e voltou ao lugar onde sempre devia ter estado
Durante demasiado tempo o software foi vendido à indústria como quem vende fé.
Bastava um ecrã bonito, meia dúzia de expressões em inglês e a promessa de inteligência artificial, integração ou automação para a proposta parecer moderna e inevitável.
Durante algum tempo isso chegou. Hoje chega menos.
Na indústria, o software já não vale pelo que mostra na apresentação comercial.
Vale pelo que resolve no processo real.
Esta mudança tem tanto impacto na própria indústria do software, com as empresas que vendem subscrições a caírem em bolsa, como aquelas que vendem as ferramentas que permitem construir sem código a subir.
O mesmo se passa na chamada Indústria 5.0.
O valor deixou de estar no brilho da tecnologia em abstrato e voltou ao lugar onde sempre devia ter estado, o problema concreto.
Reduz tempos mortos ou não reduz, evita erros ou não evita, ajuda a prever falhas, atrasos e desperdício ou limita-se a produzir gráficos que ninguém consulta.
Isto tem uma consequência importante - o código está a tornar-se mais abundante, mais barato e mais fácil de produzir.
Ferramentas low-code, bibliotecas abertas e modelos de inteligência artificial estão a acelerar a escrita de software e a reduzir a raridade da componente técnica.
Quando isso acontece, a diferenciação muda de sítio, o cerne já não está apenas em programar, mas em perceber a fábrica, o processo, a fricção real, os custos escondidos e as decisões críticas.
É por isso que alguns sectores de manufatura da região têm aqui uma oportunidade séria.
O seu valor nunca dependeu apenas de fazer peças.
Dependeu de articular projeto, engenharia, maquinação, ajuste, validação, correção e relação com o cliente.
Dependeu de conhecimento acumulado, de experiência prática e de uma capacidade rara para resolver problemas que não vêm nos manuais.
Ora, esse conhecimento continua difícil de copiar. ´
A ideia de que o futuro pertence apenas ao software puro e às plataformas desligadas do mundo físico sempre foi uma meia-verdade.
Quanto mais o digital se espalha, mais valioso se torna quem conhece a fundo o processo concreto onde a tecnologia tem de funcionar.
Não basta ter bons algoritmos.
É preciso perceber materiais, tolerâncias, tempos de setup, deformações, custos de paragem e compromissos produtivos.
Um modelo que antecipe desvios de qualidade vale mais do que uma arquitetura digital brilhante, mas sem efeito no chão de fábrica.
No fundo, a Indústria 5.0 vale menos pela tecnologia que exibe e mais pela inteligência que incorpora.
O futuro não pertence apenas a quem escreve melhor código.
Pertence a quem consegue juntar código, dados, engenharia e conhecimento de processo para resolver melhor o que continua a ser difícil resolver.
E a nossa região pode estar na frente desta revolução.