Opinião
Duas ruas abaixo, duas ruas acima
Já de gin na mão, o regresso ao magote de sorrisos fixos contou com o copo a dar suporte emocional. Não era a mão a segurar o copo, era o copo a segurar a mão. Vamos lá de mão dada, anda. Agora sim. E agora?
Encolho-me, curvo os ombros, quem observa de perto pode bem jurar que as pernas diminuíram de tamanho e que o dorso acompanhou na proporção. Sinto que, nesse ponto, posso caber numa mão fechada. E assim me fico, assustada com tudo o que se mantém grande à minha volta, mirando de soslaio uma possibilidade de eclipse que me sorva a matéria e deixe apenas visível o contorno de mim.
A ameaça não é exterior, está cá dentro. Sei disto porque ao meu redor só vejo rostos de grande sorriso afixado, copos na mão, pés que marcam as linhas do baixo da banda que toca. É o fim de tarde de um dia que foi quente e pediu largueza, despojamento, pele à vista e nenhum plano para jantar. Senti o apelo, apeteceu-me a coragem de sair sozinha. Havia uma exposição a inaugurar duas ruas abaixo, muita gente como eu, achava eu. Acabaria por pertencer, já pertencia, achava eu, pessoas que vibram vida reconhecem-se umas às outras sem negociação. Sucede uma espécie de atracção vetorial, uma força centrífuga que impele à entrega do que são. Do que sabem e do que vivem. De tudo o que os junta ali, compassos certos no pé e até coros de voz, em sabendo as lyrics. A música partilhada sabe a cama grande onde cabem todos. Achava eu.
Cheguei e pedi um gin. Não foi assim tão simples, dito desta forma parece, mas não vos quero enganar. Houve necessidade de atravessar todo o espaço do bar, da entrada ao balcão do fundo, sozinha, naquele momento descarnada, naquele momento de volta ao corredor da escola secundária, onde os mais velhos se perfilavam para nos acertar um calduço que nos punha no sítio, não fosse termos a pretensão de pertencer.
Já de gin na mão, o regresso ao magote de sorrisos fixos contou com o copo a dar suporte emocional. Não era a mão a segurar o copo, era o copo a segurar a mão. Vamos lá de mão dada, anda. Agora sim. E agora?
Não conheço ninguém e essa condição soa a sentença. Não nos conhecendo, ficamos assim. Não importa se o bafo quente de fim de tarde inflama o espírito inquieto, não importa se o gin vai todo em três goladas nervosas, não importa se o pé bate o ritmo em perfeito compasso com os pés dos outros. Não nos conhecendo, ficamos assim.
Olho em redor, acho que ainda insisto no segundo gin mas desisto no gelo derretido do primeiro. Deixo-me de novo apequenar, curvam-se os ombros, saio sozinha e ainda é dia, ainda sinto o ar quente a fazer apetecer largueza, despojamento, pele à vista e nenhum plano para jantar.
Em passo lento, retorno enfim ao supremo vazio que me conhece bem e me reserva sempre um sossego neutro, duas ruas acima.