Opinião
É urgente regular as adicções sem substância
O tratamento deste tipo de patologia é um processo complexo, dispendioso e moroso, envolvendo abordagens psicoterapêuticas, intervenções comportamentais e, cada vez mais, conduzindo ao internamento.
É alarmante quando uma criança de 9 anos nos diz, que o seu melhor amigo é o ChatGPT.
Ou, quando um adolescente, ao ser confrontado com a derrota num jogo online, num acesso de raiva, disfere o murro numa porta envidraçada e esfacela a mão, perdendo, irremediavelmente, um tendão.
Atordoado, leio no Expresso que Portugal é dos países da UE onde a população mais utiliza ferramentas de IA generativa (ChatGPT, Gemini ou outras plataformas de criação de conteúdos).
«De acordo com o INE e o Eurostat, nos últimos 3 meses de 2025, 38,7% dos portugueses entre os 16 e 74 anos, recorreram a plataformas de IA. A proporção de portugueses que recorrem a ferramentas de inteligência artificial quase duplica no grupo etário dos 16 aos 24 anos, atingindo um peso de 76,5%, e nos estudantes eleva-se a 81,5%. A taxa ultrapassa a média europeia.»
Ironicamente, é em contexto educativo que Portugal se destaca na utilização de ferramentas de IA (escolas, universidades, centros de formação).
Apesar de tradicionalmente se associarem os comportamentos adictivos ao consumo de substâncias (álcool, tabaco, drogas), a dependência de actividades como o jogo, a internet ou as redes sociais, não envolvendo uso de substâncias, tem impacto neurobiológico semelhante ao das dependências químicas, activando circuitos neuronais relacionados com a recompensa e o prazer.
É este mecanismo que leva a que os comportamentos se tornem compulsivos, com efeitos como os que se revelam. Os comportamentos adictivos sem substância, cada vez mais prevalentes, são exacerbados pela omnipresença das tecnologias digitais e pela pressão social associada a uma busca constante por gratificação imediata.
O tratamento deste tipo de patologia é um processo complexo, dispendioso e moroso, envolvendo abordagens psicoterapêuticas, intervenções comportamentais e, cada vez mais, conduzindo ao internamento.
Em 2024, o Dicionário de Oxford definiu brain rot como “deterioração do estado mental ou intelectual, especialmente vista como resultado do consumo excessivo de conteúdos online, considerado trivial ou pouco desafiador”.
O uso do termo brain rot cresceu 230% no ano 2025, tendo sido usado há mais de um século, pela primeira vez, por Henry David Thoreau no seu livro Walden, ou A vida nos bosques, para censurar a tendência da sociedade em desvalorizar ideais genuínos em favor dos mais rentáveis.
É urgente regular essa atrofia. «A bondade é o único investimento que nunca vai à falência».