Opinião

Gramática da Fantasia - Utilidade do Inútil*

4 jun 2021 20:00

Tenho andado a pensar nas coisas que nos alimentam o espírito e na ausência delas

• titulo do livro de Nuccio Ordine, Faktoria de Livros

Tenho andado a pensar nas coisas que nos alimentam o espírito e na ausência delas. Na importância da relação com o eu interior e com os outros.

Que bom que voltámos ainda que com passos de criança que aprende a andar, a poder criar e fruir e a sair para a rua, para o fazer juntos, em comunidade.

Teria sido maior o fosso e o vazio em nós no cenário de pandemia que nos assolou não fossem as inutilidades que nos preenchem o espírito…e ainda assim faltava-nos o combustível que nos move e nos dá alento, que para mim é também o do fazer com o outro em presença…

E que bom é haver coisas inúteis como os livros, a música, as artes e a relação.

Que magnânima a inutilidade de irmos juntos a um concerto ou a uma performance…que sublime o espaço de relação que se cria numa conversa sobre artes, felicidade e empatia, ou sobre a cidade, ou sobre tantas outras coisas que nos ampliam e enaltecem por dentro.

Que bom poder levar um grupo de miúdos a trabalhar em residência num museu, ou para a rua e construir um espectáculo em conjunto, ou a co-criarem com a comunidade em que se inserem… que bom poder ir com a minha família ver uma exposição, assistir a um concerto, a um espetáculo de dança, a uma orquestra, ou a novo circo, que bom poder facilitar o contacto com obras de arte a outros miúdos e graúdos e em conjunto pensar sobre o poder das artes e das pessoas e juntos perspectivar atitudes cívicas e democráticas…coisa inúteis portanto, porque aparentemente não são geradoras de lucro e como todos sabemos se não gera lucro será rotulado de desnecessário, supérfluo ou evidentemente um capricho e obviamente posto à prova iterativamente…

No livro de Ordine que dá título a esta reflexão podemos ler algures algo assim “ a utilidade dos saberes inúteis contrapõe-se radicalmente à utilidade dominante que em nome do interesse económico exclusivo vai matando a memória do passado, as disciplinas humanistas, as línguas clássicas, a instrução, a investigação livre, a fantasia , a arte, o pensamento crítico e o horizonte cívico que deveria inspirar todas as atividades humanas” …prossegue ainda que “no universo do utilitarismo um martelo vale mais do que uma sinfonia, uma faca mais do que um poema, uma chave inglesa mais do que um quadro, porque é fácil perceber a eficiência de um utensílio e cada vez mais difícil compreender para que servem a música a literatura e a arte.”

O confinamento deixou-nos inseguros, amargos, irritados…( falo por mim e intuo que não estive sozinha)…faltava-me o fazer juntos e em presença, o sentir na pele o cravar das emoções da fruição e da relação.

Diz Ordine que “nem um cheque em branco nos permitirá adquirir automaticamente aquilo que é fruto exclusivo de um esforço individual, de uma paixão inesgotável, ninguém poderá realizar em vez de nós o laborioso percurso que nos permitirá aprender”.

E aprende-se fazendo, participando, estando lá, experimentando, vivenciando num ato que pode ser solitário ou em comunidade.

Refere ainda Ordine citando Pseudo-Longino no tratado Do Sublime, que o sublime para existir também precisa de liberdade” a Liberdade dizem é aquilo que basta para alimentar os sentimentos dos grandes espíritos para lhes dar esperança”. 

E que bom que estamos livres e juntos de novo para nos alimentarmos mutuamente de esperanças.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

 

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