Opinião

Leiria (ainda) existe

12 fev 2026 16:34

O que vivemos é um vislumbre do futuro se continuarmos a tratar a crise climática como um problema distante

Era a noite de 27 de janeiro. Estava em casa de uma amiga em Lisboa, porque iria iniciar um novo trabalho. Nervosa com a apresentação do dia seguinte, procrastinei e fiquei à conversa. Leiria surgiu como tema, como surge sempre (sou daquelas pessoas que fala da sua cidade sempre que pode). Expliquei o meme “Leiria não existe” e a campanha de marketing territorial “Leiria não existe… sem ti”, que tão bem promove os encantos da cidade, do concelho e do distrito.

No dia seguinte, 28 de janeiro — uma data que ficará para a história —, mergulhada na ansiedade e no foco de quem começa um novo desafio profissional, quase não olhei para o telemóvel. Foi apenas a meio da tarde que percebi que algo estava errado. Mensagens de colegas de Lisboa perguntavam se eu estava bem e se sabia da minha família.

Em pânico, tentei vários telefonemas. Ninguém atendia. Fui ao Instagram e foi aí que o pânico se transformou em lágrimas. As imagens eram chocantes. Todos os meios de comunicação social falavam de Leiria. Naquele momento, Leiria passou a existir para o aís, enquanto, para muitos dos seus habitantes, parecia deixar de existir.

O pesadelo estava apenas a começar. Primeiro a depressão Kristin, depois Leonardo e Marta, e por fim — esperamos — um rio atmosférico com chuva intensa e persistente. Quatro depressões em duas semanas. Este texto está a custar-me a escrever. Pela tristeza, pela impotência e pela sensação de que estamos a assistir a algo que já sabíamos que viria. Para além das falhas evidentes de prevenção e resposta, o que vivemos é um vislumbre do futuro se continuarmos a tratar a crise climática como um problema distante.

Há dois anos, na COP29, a ativista filipina Marinel Ubaldo contou-me que o seu país tinha sofrido seis tufões num só mês. Lembro-me de sentir tristeza e empatia, mas, no fundo, pensar que demoraria a chegar “à minha casa”. Chegou. O que aconteceu em Leiria não é comparável à realidade das Filipinas, mas é o início de fenómenos extremos mais frequentes, intensos e destrutivos, impulsionados pelo aquecimento global.

A solidariedade da comunidade tem sido extraordinária. Mas não chega. Precisamos de políticas públicas sérias de transição, mitigação e adaptação climática. Precisamos de investimento em prevenção, planeamento urbano e proteção civil. Precisamos de implementar a Lei de Bases do Clima — ainda longe de sair do papel — em vez de discutir a sua revisão. Governar é proteger. E proteger, hoje, significa agir perante a crise climática. Leiria existe. E merece continuar a existir.

Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990