Opinião
Maio, um quase divino maio
O que posso fazer pela paz na Ucrânia, em Gaza, no Líbano e em tantos outros sítios, meu Deus?
Apesar de sentir o outono como a estação do ano minha preferida, maio sempre me encantou. Quando era criança, na minha escola, no primeiro dia desse mês, de um dia para o outro, aparecia feito, num cantinho do pátio do recreio, um altar a Nossa Senhora repleto de flores brancas que exalavam um perfume maravilhoso e que, na minha mente infantil, eu sentia como a moldura mais bonita que se podia imaginar para o que vinha a seguir: à beira desse altar, todos os dias, antes de as aulas começarem, professoras e alunas faziam, de uma forma sentida e solene, uma oração pela paz. E eu precisava dessa oração, oh, se precisava!
Na minha cabeça, muitas perguntas me andavam a inquietar: como compreender que os malévolos comunistas fossem, ao mesmo tempo, construtores do Muro de Berlim e de feitos tão grandiosos como pôr, pela primeira vez, um ser humano a viajar pelo espaço?
Como encaixar os discursos de Salazar sobre o direito de Portugal “mandar” em povos africanos com os de Martin Luther King Jr. sobre os direitos civis das pessoas negras americanas?
Como entender os benefícios de uma pátria suportada no “Deus, Pátria e Família”, quando, à minha volta, eu via tantos portugueses a emigrarem clandestinamente, a deixarem para trás as suas famílias para tentarem fugir à miséria de a nada terem direito?
Qual o sentido para serem os herdeiros das vítimas do Holocausto os autores da Nakba de que o meu pai me falava?
Qual seria, então, a diferença entre o sionismo e o nazismo?
Entretanto, a vida sorriu-me e auxiliada por tudo o que me trouxe o 25 de Abril de 1974, eu pude, saltando de inquietação em inquietação, chegar à enorme inquietação que sinto nos dias de hoje: em defesa da paz e da dignidade humana, para além de dar o meu voto a partidos defensores do mesmo que eu, o que posso fazer pela paz na Ucrânia, em Gaza, no Líbano e em tantos outros sítios, meu Deus? Mas maio é, de facto, encantador e trouxe-me uma resposta!
O Professor Frederico Lourenço sugeriu uma “nova tradução da oração do Pai Nosso”. E eu peguei nela e no meu altar, emoldurado, desta vez, por todos os que rezam a outros deuses e pelos que, sem Deus, também sentem a necessidade de orar e pus-me a rezar: Pai “…não nos leves, como fizeste aos israelitas no Antigo Testamento, para a provação de termos de escolher entre ti e aquilo que se te opõe, mas livra-nos do mal, que consiste no proveito próprio em detrimento do bem que és tu…”.
Será que voltei a ser criança? É que o encanto de maio regressou à minha vida e como se fosse quase divino eu senti, em mim, uma sensação reconfortante de paz.