Opinião
Música | A madrinha do hip hop
É, provavelmente, um dos movimentos musicais mais dominados por homens. Mas é curioso que uma das pessoas que mais mudou o rumo desta história tenha sido uma mulher. Sylvia Robinson
O hip-hop é, provavelmente, um dos movimentos musicais mais dominados por homens. DJs, MCs, produtores, crews, batalhas, egos, correntes de ouro e testosterona com fartura.
Mas é curioso que uma das pessoas que mais mudou o rumo desta história tenha sido uma mulher. Sylvia Robinson.
Não rimou, não fez beats, não inventou o hip-hop e, quando percebeu o que estava a acontecer, aquilo na verdade já acontecia há alguns anos.
Em 1979 Sylvia tinha 44 anos e um par de olhos experientes e atentos.
A senhora já levava quase trinta anos de música. Começara a gravar ainda adolescente, fizera “Love Is Strange” nos anos 50, escrevera canções, produzira artistas, criara editoras e ainda voltara aos tops em 1973 com “Pillow Talk”. Resumindo, entendia melhor o mercado que muitos dos homens de charuto que mandavam na altura.
Entretanto, noutra parte de Nova Iorque, Kool Herc, Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa e outros que tais andavam a fazer outra coisa. Havia block parties e bairros inteiros onde uma cultura nova crescia à volta de gira-discos, breaks, dança e gente a rimar ao microfone.
O hip-hop já existia no Bronx. Mas não nas lojas de discos.
Sylvia juntou três rappers que nem sequer eram um grupo, chamou-lhes Sugarhill Gang, levou-os para estúdio e pô-los a rimar sobre uma recriação de “Good Times”, dos Chic.
“Rapper’s Delight” tinha quase quinze minutos.
E vendeu que nem pãezinhos quentes.
Aquilo que acontecia numa festa no Bronx podia agora tocar numa rádio ou chegar a um gira-discos a centenas ou milhares de quilómetros de Nova Iorque.
Sylvia criou a Sugar Hill Records e continuou a apostar em mais nomes e, em 1982, apareceu “The Message”. Grandmaster Flash and the Furious Five não estavam propriamente convencidos, até porque faziam música para festas e aquela canção falava de pobreza, violência, prédios degradados e de uma cidade onde sobreviver já dava bastante trabalho.
Mas Sylvia insistiu com eles e conseguiu que fosse gravada e editada.
“The Message” mostrou que o rap podia intervir, denunciar, incomodar e usar uma canção como uma arma. Podia falar do bairro não apenas para fazer uma festa no bairro, mas para contar ao resto do mundo o que se passava lá dentro. E o resto é história.
Sylvia Robinson deixou-nos em 2011.
Se cá estivesse teria 90 anos e perceberia até onde chegou aquele seu instinto. Ajudou gerações inteiras de músicos a saírem dos seus bairros e a tornarem-se estrelas mundiais. Sem terem que deixar de cantar sobre a rua onde cresceram.
O hip-hop tornou-se uma das maiores forças culturais das últimas quatro décadas. Na altura só se queria fazer uma festa no bairro, hoje há miúdos em quase todas as cidades a escrever rimas com a convicção legítima de quem acredita que alguém, do outro lado do mundo, pode querer ouvi-las.
E muitos conseguem.
E isto aconteceu porque, na pré-história do hip-hop, Sylvia ouviu e percebeu. A música, a atitude e o potencial.