Opinião
Música | Cartografar com o ouvido
Enquanto o mundo acelerava, Lomax fez o contrário, foi atrás do que ficava para trás. Levava um gravador pesado, pouco prático, e uma ideia simples. Ouvir e registar. Entrou em casas e prisões, atravessou estradas e campos, foi parando onde o deixavam
Há nomes que podem não caber na capa de disco ou num cartaz de um festival e ficam de lado na história documentada. E, no entanto, são muitas vezes eles que documentam e sustentam aquilo que ainda hoje ouvimos. Alan Lomax é uma dessas figuras. Nasceu em 1915, nos Estados Unidos, e cresceu no meio de canções que ainda não eram bem “música” como hoje a entendemos. Eram coisas úteis e serviam para trabalhar ou para passar o tempo.
Desde muito cedo acompanhava o pai, também ele entusiasta da tradição musical, e percebeu que aquilo podia desaparecer. E que ninguém estava propriamente preocupado com isso.
Nos anos 30, enquanto o mundo acelerava, Lomax fez o contrário, foi atrás do que ficava para trás. Levava um gravador pesado, pouco prático, e uma ideia simples. Ouvir e registar.
Entrou em casas e prisões, atravessou estradas e campos, foi parando onde o deixavam. Gravou Leadbelly quando ainda era apenas uma voz numa pequena sala, gravou Muddy Waters antes dele chegar sequer a um palco. Não estava à procura de nomes nem de géneros, dava largas à curiosidade e tentava cartografar, como se antecipasse o eventual desaparecimento. Um pouco à maneira do que Michel Giacometti fez por estas bandas.
O impacto sente-se em Bob Dylan ou Joan Baez, na forma como certos ritmos são recuperados e maneiras de cantar reaparecem. As suas gravações são uma espécie de raízes que voltam a crescer de audição em audição e passam a inspirar novas paisagens sonoras.
Depois dos Estados Unidos, Lomax ainda foi recolhendo memórias sonoras por Espanha, Itália e Caraíbas.
Mas nada do que gravava era seu. Lomax falava em equidade cultural, em devolver tudo a quem tivesse a curiosidade de procurar. No fundo, trabalhava a essência da palavra partilha. Hoje, mais de 15.000 gravações suas estão disponíveis através da Association for Cultural Equity e na Biblioteca do Congresso dos EUA. Não como uma enciclopédia fechada, mas como um conjunto de pontos de partida.
A cartografia musical nunca está fechada. Há sempre mais qualquer coisa por mapear e Lomax percebeu que, tantas vezes, tão ou mais urgente do que tocar e cantar, pode ser carregar no botão para gravar.
Até porque saber procurar e saber ouvir pode ser um acto revolucionário.