Opinião

Música | Leiria: a voz que já não soa

10 abr 2026 08:12

Leiria destaca-se pela sua peculiaridade: a inexistência de rádios com raiz na comunidade

Enquanto municípios vizinhos como Marinha Grande, Porto de Mós, Pombal e Alcobaça ainda preservam algumas estações de rádio locais, como a Rádio Clube Marinhense, a Rádio Dom Fuas, a Rádio Cardal, a Rádio Clube de Pombal, ou a Rádio Nazaré, Leiria destaca-se pela sua peculiaridade: a inexistência de rádios com raiz na comunidade.

Num texto do investigador Luís Bonixe, sobre as rádios locais em Portugal, recorda-se o período entre 1977 e 1988, quando o país assistiu a uma autêntica revolução sonora, marcada pelo surgimento de centenas de rádios piratas (ou rádios livres). Estas estações, nascidas da vontade popular e da sede de liberdade após décadas de censura durante a ditadura, transformaram o panorama comunicacional do país. Naquele tempo, a democratização do acesso ao éter foi impulsionada pelo 25 de Abril, que abriu as portas à expressão livre e à experimentação. Jovens sem formação em comunicação, mas cheios de entusiasmo, improvisavam emissoras em espaços inusitados: quartos, caves, vãos de escada ou até torres de igrejas. O autor relata que com equipamentos rudimentares — gravadores, gira-discos e emissores adquiridos em lojas de eletrodomésticos — davam vida a projetos que, apesar da precariedade, refletiam a alma das suas comunidades.

O Jornal de Notícias chegou a descrever, em 1983, que "com apenas dez contos" era possível montar uma rádio. O amadorismo era a tónica, mas também o encanto. Luís Bonixe – numa magnífica investigação – conta que o jornal Expresso, em 1987, retratou a diversidade dos "piratas do éter": desde padeiros a barmen, passando por policiais, militares, teólogos e até filósofos.

A criatividade não tinha limites, os estúdios eram muitas vezes o quarto do locutor, os microfones improvisados, e os letreiros das rádios desenhados à mão. Apesar das dificuldades financeiras — muitas sobreviviam de doações ou de publicidade , os nomes das emissoras revelavam o seu espírito irreverente: Rádio Delírio, Rádio Caos, Rádio Livre, Rádio Porta Aberta. Algumas, como a Rádio Imprevisto, apostavam em conteúdos alternativos, explorando os "lados B" ignorados pelas rádios oficiais. Embora a maioria fosse efémera, o movimento ganhou tal força que pressionou o Estado a legalizar as rádios locais em 1988.

Este fenómeno foi muito mais do que uma rebeldia técnica: foi um ato de liberdade coletiva. Num país que saía de décadas de silêncio forçado, estas rádios demonstraram que, com pouco mais do que entusiasmo e um sentido de comunidade, era possível fazer rádio. O mundo, de facto, mudou. As diversas plataformas com podcasts mudaram o paradigma. Hoje, a ausência de rádios locais em Leiria contrasta com este legado de inovação e participação cívica.