Opinião

Música | “Para mim, somos frágeis”

13 mai 2021 00:00

Estou, estes dias, perante mais uma belíssima descoberta ao navegar a portentosa curadoria musical do projecto Contemplative Classical

Originalmente pensado pelo já consagrado Michael Price, transitou, nos últimos tempos, para as mãos da Headphone commute (um extraordinário compêndio de obras e entrevistas exaustivas - a escutar religiosamente no “the contemplative podcast” - nos géneros da música electrónica e neo-clássica).

Desta feita, estou a escutar Julia Gjertsen, uma pianista e compositora nascida e actualmente residente na bela cidade de Oslo, capital da Noruega.

Da pouca informação biográfica a que consegui chegar, Gjertsen iniciou os seus estudos ao piano por volta dos sete anos de idade, prosseguiu a formação musical durante o ensino secundário e completou um curso em Oslo (duração de dois anos), com o nome de Music Design Program, nome curioso que me deixou até a querer pesquisar mais acerca do seu plano curricular quando tiver oportunidade.

Falando do que me orienta este texto, o álbum Fragile surge em Novembro de 2019 e é um trabalho editado pela canadiana Moderna Records, sediada em Montreal.

Gjertsen é responsável pelo processo de composição e interpretação, mas também pela captação e mistura.

Intimistas mas ainda assim grandiosos à sua maneira, são oito os temas que teimam, caprichosamente, em nos manter à tona de uma certa insanidade pandémica que nos vai atrasando animicamente.

Cavalgando a energia carismática de um post-rock suavizado por uma instrumentação mais clássica, há temas em que a autora insiste em reconduzir a nossa atenção para o poder hipnótico do minimalismo, como em Fragile - o segundo tema do disco e que lhe dá nome.

A bordo de uma já intransigente névoa electrónica no universo neo-clássico, e evidenciando uma clara mestria na manipulação de sons processados, bem como executando na perfeição o seu encontro com o complexo espectro harmónico de um piano acústico, Gjertsen é claramente uma experiente produtora e, mais que isso, uma ouvinte atenta e apaixonada.

Há momentos no seu disco em que a jovem compositora me lembra até Rodrigo Leão (em Floating, por exemplo), melodias cativantes e de uma leveza contagiante; não há muitos momentos soturnos ou pesados neste disco, pelo contrário, há uma tendência para o apaziguamento e para o abrandamento.

“Há uma certa ingenuidade e melancolia, como assim é a Primavera”, diz a autora sobre o disco.

“Para mim, somos frágeis”, continua.

Na verdade, quando a interiorização e consequente partilha dessa fragilidade assume contornos artísticos deste calibre, parece-me natural que nos eleve a uma invencibilidade de espírito, algo que se imponha perante o sempre débil mundo físico.

O disco foi masterizado por Taylor Deupree (fundador da editora 12K, colaborou já com Ryuichi Sakamoto, David Sylvian, entre tantos outros) e a ilustração gráfica de Carsten Daub.

Mais uma artista a acompanhar.

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