Opinião
Nesse tão longe onde moras
Dizem-me que apareces sozinho nos bares, o Vinicius canta isso tão bem. Adivinho ser uma boémia sem lugar para dois, até ao dia em que percebo que na boémia, como na casa, como na mesa, como no peito, cabe sempre mais um
Nesse tão longe onde moras, haverá lugar para mim?
Não pergunto de ânimo leve, estou consciente de que te deixo no lugar ingrato de decidir o meu destino. Porque, vamos lá ver, lugar há sempre, que o espaço é plástico, não é? O espaço da casa é, cabe sempre um colchão no chão. O espaço da mesa é, cabe sempre um prato a mais. O espaço do peito é, cabe sempre mais um amor. Mas nem sempre cabe sempre mais um salto de fé.
O que te peço agora é que me abraces com desespero, me levantes alto no ar e decidas depois onde me queres pousar. Tens tempo, não tenho urgência, aqui onde estou os dias correm estéreis, sem perigo de me morrer a alma numa septicémia que ninguém esperava. Fui promovida, sabias? Comprei uma viagem com três escalas, sabias? Renovei o apartamento inteiro, sabias? Como vês, tudo saudável por aqui.
Mas o aqui é tão longe de onde moras. Mais longe que a viagem com mais escalas de toda a rota da aviação comercial do mundo inteiro.
Imagino a tua vida nesse lugar remoto ao fundo da minha rua, onde deixou de haver espaço para duas taças de vinho branco, duas coreografias desconexas ao som do mesmo slow, duas colheres de pau a mexer os mesmos ovos. Dizem-me que apareces sozinho nos bares, o Vinicius canta isso tão bem. Adivinho ser uma boémia sem lugar para dois, até ao dia em que percebo que na boémia, como na casa, como na mesa, como no peito, cabe sempre mais um.
Não respondas ainda, não tenho urgência nenhuma. Estou muito bem, sabias? Só não entendo porque se muda de certezas antes de se mudar de expectativas, não entendo porque se muda de sentir antes de se mudar os lençóis da cama. Não entendo porque se muda para tão longe quando se permanece ao fundo da mesma rua.
Dizem-me que quando apareces pareces doente. Que precisas de mim como se precisa de morfina quando se precisa de morfina. Se um dia te apetecer frango cozido em branco de hospital, estou pronta. Juro que não me esqueço de não pôr sal. Componho um tabuleiro competente, não há risco nenhum associado, isso posso garantir. No copo teremos água de PH 9, a maçã será assada sem açúcar e não faltará sequer um blister de bolacha maria. Sirvo-te na cama, não deves fazer esforços. Porque as forças guardá-las-ás para revirar a casa inteira, arrastar móveis pesados, trocar o sofá grande de sítio e, se forças te sobrarem, fazer a cama com lençóis lavados. Porque aposto que, com jeitinho, com intenção, com um fogacho de tesão, depois de eu recolher o tabuleiro vazio e voltar a entrar no quarto, tu arranjarás lugar para mim outra vez. Nesse tão longe onde moras.