Opinião

Ninguém é substituível

4 jun 2021 15:50

Além dos elefantes, parece que somos os únicos animais conscientes da própria morte. Mas ao contrário dos elefantes, não queremos assumir tal facto como verdade natural das nossas vidas

O luto é inevitável. E obrigatório. E pessoal. E duro. Muito duro.

Fala-se pouco da morte. Das várias vivências que temos ao longo da vida, esta é também uma delas, mas não se encontram livros nem blogues ou posts sobre o assunto.

É tabu, diria. Mas talvez normal. Pela aversão natural que nos impõe. Contudo, temos que a viver. E quando a vivemos perturba. Sempre.

É a única coisa que temos certa, diz o ditado. E é, de facto, verdade.

Para além dos elefantes, parece que somos os únicos animais conscientes da própria morte. Mas ao contrário dos elefantes, não queremos assumir tal facto como verdade natural das nossas vidas.

E por isso não nos preparamos. Porque achamos que não é suposto termos que nos preparar.

E não a entendemos, mas isso porque, de facto, não é para entender. Não é nenhum falhanço e muito menos um castigo. É. Simplesmente é. Sempre foi e sempre será.

Aceitamo-la melhor depois de uma vida longa. Não conseguimos aceitar quando chega cedo demais. Não é natural. Não é justa.

Não se explica, porque é inexplicável. Acontece. Simplesmente isso. E faz também parte tudo o que a ela se associa. A revolta, o desespero, a angústia, até o alívio... E temos que nos permitir viver tudo isso.

Não temos que ser super-heróis, naquela imagem de seres imperturbáveis que nos é passada pelo cinema e coisas que tais, mas sim verdadeiros super-heróis por termos a coragem de viver todo o processo sem fugas nem subterfúgios.

O luto é o processo natural de adaptação à perda, com quatro respostas, emotivas, físicas, cognitivas e comportamentais; quatro fases, entorpecimento, ânsia pela pessoa perdida, desorganização e desespero, recuperação; e quatro tarefas, aceitar a perda, trabalhar para além da dor, adaptar-se ao ambiente sem a pessoa perdida, e seguir em frente.

Contudo, conhecer toda esta teorização de pouco serve para melhor apoiar uma pessoa em luto, porque o quer que se faça parece ter pouca influência no processo, para além de um conforto momentâneo que não impede nem diminui a tristeza e nunca é suficiente para “resolver” o sentimento de perda.

Porque ninguém é substituível. E por isso o luto é inevitável. E obrigatório. E pessoal. E duro. Muito duro.

Fala-se pouco da morte, talvez porque não adianta. Mas a verdade é que é muito importante que quem tem que com ela conviver com recorrência se prepare, e treine, para lidar com as diferentes pessoas a quem terá que dar a pior notícia das suas vidas.

É função do médico comunicar o óbito dos seus doentes às suas famílias. Não faço ideia como isso se faz, mas tenho a certeza que custará sempre, por mais que se treine.

É função do médico comunicar ao doente que a melhor opção é a paliação por não haver mais tratamentos disponíveis.

Não faço ideia como isso se faz, mas tenho a certeza que custará sempre, por mais que se treine.

Se assim não for, se se entorpece demais, então é melhor mudar de profissão, porque ser médico é primeiro que tudo ser pessoa. Encontrar esse equilíbrio será talvez o mais difícil desta profissão.


Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

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