Opinião

Nova vida para o que está morto

7 nov 2019 12:12
joao-nazario-director-do-jornal-de-leiria
João Nazário, director do Jornal de Leiria

É certo que são, todos eles, propriedade privada, mas como refere o presidente da Câmara Gonçalo Lopes, ouvido sobre o caso do Sol Leiria, encerrado há duas décadas, “é um problema do foro privado, que atinge o interesse público”.

Um dos problemas que afectam muitas cidades é a existência de edifícios devolutos ou com actividade reduzida face à sua dimensão, que quanto maior for mais impactos tem na área em que estão inseridos.

Todos já terão sentido que determinada zona de uma cidade pela qual se passe emana uma sensação de insegurança, de degradação e de abandono, não raras vezes apenas pela presença de uma antiga fábrica abandonada, um centro comercial desactivado ou uma obra que por alguma razão ficou a meio.

Perde com isso toda a cidade, pela má imagem e perda de dinâmica, mas principalmente quem diariamente é obrigado a conviver com esses espaços, por habitar ou trabalhar nas suas vizinhanças, ou não fossem esses espaços propícios à marginalidade, acumulação de lixo e proliferação de animais que todos gostamos de ver longe.

No entanto, se a existência de edifícios com essas características é um problema grave, não deixa também de ser uma boa oportunidade para os cascos urbanos das cidades se requalificarem e reinventarem, com novas propostas que possam ir ao encontro daquilo que as dinâmicas das cidades e das suas populações vão exigindo.

Um bom exemplo na nossa região é a Marinha Grande que, sendo urbanisticamente pobre, tem a vantagem de ter várias antigas fábricas abandonadas no centro, havendo condições, caso haja visão, dinheiro e planeamento, para ser uma cidade substancialmente diferente, para melhor, dentro de alguns anos.

Não sendo um caso tão evidente, também em Leiria há espaços no centro que, se requalificados, poderiam ser um contributo muito importante para uma urbanidade mais qualificada e para uma cidade mais vivida.

Pensemos, por exemplo, no potencial de espaços como o Centro Comercial D. Dinis, as galerias Alcrima ou o Sol Leiria, de que falamos nesta edição, todos eles edifícios com uma área imensa e que com uma actividade mínima ou mesmo encerrados.

É certo que são, todos eles, propriedade privada, mas como refere o presidente da Câmara Gonçalo Lopes, ouvido sobre o caso do Sol Leiria, encerrado há duas décadas, “é um problema do foro privado, que atinge o interesse público”.

Talvez fosse interessante que a Câmara, antes de pensar em construir novo, olhasse para estes edifícios como solução para alguns dos seus projectos ou para dar resposta a algumas das carências existentes no centro da cidade, podendo-se pensar, por exemplo, em habitação para estudantes, em incubação de empresas ou em ateliers/salas de ensaio para a comunidade artística, exemplos de utilização deste tipo de espaços existentes um pouco por toda a Europa.

Certamente que seria um processo complicado, dada a dispersão da propriedade, mas seria um esforço que valeria a pena e que a cidade agradeceria.