Opinião

O português não sabe o que é racismo

26 abr 2021 10:33

"Os muros invisíveis estão aí, separando as pessoas, segregando geograficamente os cidadãos em classes, clãs e castas"

O português não sabe o que é racismo O que é compreensível. Somos uma sociedade branca, salvo em raras bolsas urbanas, e temos a fama (nem sempre o proveito, é certo) de país historicamente multicultural.

A escravatura e o colonialismo são temas que só recentemente, e de forma tímida, têm saído do armário e evitamos falar neles ou mudamos o tema de conversa quando surge inesperadamente.

Eu, por exemplo, conheci a primeira pessoa negra aos 13 anos e nunca presenciei um ato declarado e óbvio de racismo em Portugal.

Na escola, não me lembro de ter ouvido ou lido sobre os períodos negros da nossa história, e assim vivi tranquilamente na minha bolha de branco da classe média de um país europeu que se beneficiou de, e promoveu, o rapto e a venda de seres humanos, durante séculos.

Foi apenas aos 34 anos, no Brasil, que percebi o que é o racismo.

Não o racismo nos campos de futebol, onde adeptos enfurecidos chamam “macaco” a algum atleta da equipa adversária ou nos subúrbios do Rio de Janeiro, onde um jovem negro é esmagado até à morte num supermercado por ter roubado um pacote de pipocas, mas o racismo estrutural, aquele que está de tal forma impregnado no tecido social que se torna invisível, quer para a minoria branca privilegiada quer para a maioria negra resignada.

Nesse estranho dia da minha memória, enquanto esperava para ver Maria Bethânia ao vivo, apercebi-me de algo estranho na sala: não havia negros entre o público.

Ainda que me encontrasse num estado onde apenas 15% da população é negra ou mestiça, seria de esperar que algum negro quisesse ver um espetáculo da grande artista popular brasileira. Mas não. Nem um para amostra. Os meus olhos bem procuraram, mas sem sucesso.

Ao intervalo, curioso, levantei-me e dei uma volta pela sala e consegui ver um negro numa plateia para 1500 pessoas.

O documentário de Toni Venturi e de Val Gomes poderá não ser revelador para quem tem consciência do problema racial no Brasil e das suas raízes históricas, mas, estou certo, será impactante para a maioria dos que tiverem oportunidade de o ver em Portugal.

Mais do que um guião repleto de clichês e situações chocantes e explícitas, “Dentro da Minha Pele”, escolhido em novembro passado para o Festival Internacional de Cinema Documental de Amesterdão, o maior do mundo do seu género, opta por nos apresentar esse racismo invisível e estrutural que é bem real no dia a dia dos brasileiros, contextualizando-o com a história das suas raízes e a implementação deliberada pela minoria branca de descendência europeia.

Os relatos na primeira pessoa são intercalados por entrevistas a ativistas, filósofos, historiadores e sociólogos, mas também pela música e as artes visuais negras, qual voz oprimida num país que só agora vai acordando lentamente para a consciência de que o racismo, ainda que seja um problema que afeta maioritariamente os negros, é apenas um dos exemplos da desculpa social que usamos para nos sobrepormos aos outros, seja com base na cor da pele, no sexo, na religião, no clube de futebol ou no tamanho da conta bancária.

Tal como a própria Val Gomes diz: “vivemos em bolhas e, anos atrás, nos tempos analógicos, estávamos mergulhados em bolhas ainda mais profundas, dentro do nosso meio social, seja ele o da classe média, do rico ou do pobre. Ainda hoje, com a internet e intercomunicação digital, os muros invisíveis estão aí, separando as pessoas, segregando geograficamente os cidadãos em classes, clãs e castas.”

Este é mais um pequeno contributo que o hádoc dará amanhã, no Teatro Miguel Franco, pelas 19:30 horas, na sua tentativa de esporear consciências e reduzir tais barreiras.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

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