Opinião
Respirar literatura | Natália Caseiro (2026), Hélène de Beauvoir. Os anos de Portugal. Ou a escrita austera sobre as pulsões da vida…
Suponho que muitos terão feito associação simbólica (diferente de supersticiosa…) da ficção provocatória Leiria não existe com a ira da Kristin (passou meio ano…), que nos catapultou a todos para uma existência-outra: forjada pelas pulsões dos habitantes do lugar devastado num paciente-novo e reconstruído território de vida. A minha forja é a arte da palavra e a investigação.
A editora Hora de Ler tem-se armado como uma casa capaz de albergar arquivos e reflexões sobre o passado patrimonial da região, do país e do mundo e de os projetar para a pulsão do espaço futuro.
E se a revista Anais Leirienses. Estudos e documentos (com o n.º 20 apresentado a 18 de julho no Centro de Artes Villa Portela, sala de leitura J. L. Tinoco) é o veículo reconhecido desse velho-novo-futuro território, um guia para/da Leiria a atravessar o tempo-espaço, a publicação de ensaios sobre figuras menos conhecidas da região, livros para a infância, poesia, romances é uma janela tenazmente aberta para revelações criativas.
Surpreendente é o novo livro de Natália Caseiro (NC) - biografia romanceada ou romance biográfico (qual a diferença?) – Hélène de Beauvoir. Os anos de Portugal, apresentado dia 11 de julho na BML, ed. da Hora de Ler, com bela capa de Cristina Sousa.
Nascida em e habitante de Leiria, NC é conhecida da cidade não apenas pelo seu percurso pedagógico, mas pelo investimento na área da documentação e bibliotecas, inscrevendo na escola Domingos Sequeira felizes sinais da sua marca e passagem.
Serei austera e nada mais direi sobre a biografia da autora, tal como ela fez com a imposição de uma escrita rigorosa, limpa, sóbria, fina, escusando-se de exuberâncias e afetações de paixões que os leitores podem pressentir, mas que as palavras literárias deixam na sombra do que evocam.
O rigor com a revelação das fontes faz o leitor ‘desconfiar’ se estará perante uma dissertação de mestrado ou um ensaio resultante de uma investigação biográfica e histórica.
Toda a palavra literária surge do acontecido e sublima-o num novo ser: o objeto estético. O que faz com ela é o que distingue a Arte da História.
NC está a atravessar a ponte entre a História e a narrativa literária, e a sua severidade e integridade de investigadora (diferente de ‘falsa modéstia’…) fazem-na temer a palavra ‘romance’, com receio do domínio das pulsões estéticas.
O mais engraçado é que a ‘estória’ de Hélène de Beauvoir (HB) conta-nos várias sublimações: como um espelho refletido até ao infinito.
Da irmã mais nova de Simone de Beauvoir, a caminhar na estrada da II Grande Guerra, o livro aproxima-se dos anos 40 do séc. XX, quando Paris estava quase a ser ocupada pelos alemães, e HB decide viajar para Portugal (onde o noivo, Lionel Roulet, se encontrava em Faro), pintando várias paisagens encantatórias e vivendo vários episódios cosidos na tessitura do ambiente sociopolítico do Portugal ditatorial e neutral da época.
Ora, esta ‘estória’ abarca a temporalidade de 5 anos, até à libertação de Paris e o regresso de HB – assim seria a intriga linear do romance; porém ele é uma ficção dentro de outra ficção: lido e com o processo de escrita reconstituído pela protagonista Amanda, depois da morte do pai, Júlio Tavares, em 2008, quando encontra a narrativa secreta enterrada num caixote (opus cit., p.9), com a data inscrita de 1980.
Se o pai misterioso de Amanda sublimou na personagem do inspetor Rogério Afonso – que segue HB desde o cruzar da fronteira em Vilar Formoso até à exposição em Paris das suas obras (1945) – uma paixão pela pintora francesa, NC pode ter sublimado em Amanda todas as suas metarreflexões sobre o processo de escrita e a utilização das fontes e arquivos ao seu dispor, delineando fronteiras pelas diferenças que os repositórios digitais vieram permitir colmatar nos últimos 80 anos.
O mês do verão de 1942 passado por HB em Leiria (caps. 14 e 15), como convidada da Missão Estética de Férias, é um veio fortíssimo da existência de Leiria e dos seus artistas sob a tutela de Narciso Costa.
Sóbria, austera, a escrita de NC convida o leitor e incita-o a novas e outras investigações através da sublimação na curiosidade de Amanda, ao ler e analisar um inédito, cuja prova de existência este objeto estético ficciona num tapete de Arraiolos (invólucro de obras de arte roubadas pelos alemães durante a IIGG).
Quanto às fontes editadas ou digitalizadas: em bom rigor, a nota introdutória e a Nota Bibliográfica e Agradecimentos finais tudo revelam… e continuam a incitar leitores curiosos, com pulsão de vida.
Forjas artísticas.