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Ágora. Castelo recebe música de Marrocos, Palestina e África Ocidental e a despedida dos Paus

17 set 2026 17:00

Entre 18 e 20 de Setembro, a programação regressa às muralhas para cruzar música, performance, instalação e património, numa edição marcada pela vontade de abrandar, escutar e olhar de outra forma para o espaço que a acolhe

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Os Paus apresentam Enterro, o disco que marca a despedida da banda dos palcos
Frederico Rompante / Ágora

Há qualquer coisa de inesperado em levar música, silêncio e encontro para dentro de uma fortaleza. É precisamente essa relação que o Ágora explora quando regressa ao Castelo de Leiria.

Entre 18 e 20 de Setembro, o Ágora regressa às muralhas para cruzar música, performance, instalação e património, numa edição marcada pela vontade de abrandar, escutar e olhar de outra forma para o espaço que a acolhe.

A transformação começa, desde logo, na forma como o festival ocupa o Castelo. Depois de, nas primeiras edições, ter espalhado a programação por diferentes zonas do monumento, este ano o Ágora concentra quase tudo num mesmo nível. A mudança resulta da experiência acumulada, mas também procura facilitar a mobilidade e a acessibilidade, dentro das limitações próprias do terreno, e proporcionar maior conforto ao público.

“Fomos testando o próprio espaço”, explica Gui Garrido, director do Ágora. A opção permite também reduzir a presença da componente técnica. “Temos este ano uma programação em vários espaços, mas mais pequenos, mais intimistas, com menos intrusão técnica e que deixa o Castelo mais ao centro da contemplação que também queremos que faça parte da experiência.”

Além do cenário

Mais do que servir de cenário aos espectáculos, o monumento é, assim, parte da proposta artística. Um lugar construído para proteger e separar é temporariamente transformado num espaço de proximidade e encontro. E essa relação com o lugar ganha, este ano, uma camada particularmente ligada à experiência recente da cidade.

A tempestade Kristin, que deixou marcas em Leiria e em tantos outros lugares, também influenciou a orientação desta edição. “Passámos pela experiência de sentir o tempo suspenso com tudo o que aconteceu, de um ambiente muito negro, mas também de esperança”, conta Gui Garrido. Essa dualidade atravessa um programa que procura levar o público para lugares físicos e emocionais onde a mudança, a memória e a capacidade de adaptação estão presentes.

A programação reúne artistas de geografias e linguagens distintas. Asmâa Hamzaoui & Bnat Timbouktou trazem ao Castelo a tradição Gnawa marroquina, enquanto a palestiniana Israa Shalaby cruza voz, espiritualidade e experimentação. A compositora belga Margaret Hermant apresenta o seu universo feito de harpa, electrónica e silêncio. E a memória e a resistência palestinianas estão também no centro de mā tmutish, de el djinn.

O adeus dos Paus

Há ainda quem chegue ao Ágora para fechar um ciclo. Os Paus apresentam Enterro, o disco que marca a despedida da banda dos palcos. Um fim que encontra eco numa edição atravessada por ideias de transformação, perda, memória e recomeço.

A programação completa-se com propostas como o trabalho de Djali Binto Kanuté, o espectáculo Antiprincesas – Juana Azurduy e a instalação Until Nothing Falls, Gravity Waits, de Carincur + João Pedro Fonseca, que coloca uma pedra suspensa nas cisternas do Castelo, explorando a relação entre matéria, gravidade e percepção.

Mas o encontro não acontece apenas diante de um palco. O primeiro dia começa com Partir Pão, Partir Pedra, um piquenique comunitário nas Varandas do Castelo, onde cada participante é convidado a levar comida para uma mesa comum. Um gesto simples que procura transformar o património em lugar vivido e partilhado.

É também essa a experiência que o Ágora procura construir: menos uma ocupação do Castelo e mais uma adaptação a ele. “Desafia-nos a uma experimentação de adaptação ao lugar, mais do que o lugar a nós”, resume Gui Garrido.

Durante três dias, as muralhas deixam, assim, de ser apenas fronteiras. Tornam-se espaço para ouvir outras vozes, partilhar o mesmo lugar e, talvez, descobrir novas formas de o habitar.