Viver
Amy Winehouse volta a caminhar por Camden Town pela mão do realizador de Leiria João Pombeiro
Um inédito de "Tears Dry" abriu a celebração dos 20 anos de Back to Black e trouxe com ele um vídeo do artista visual que devolveu a cantora britânica às ruas de Camden a partir de arquivo. O pai dela chamou-lhe "obra-prima"
Clique em cima para ver o vídeo
A icónica cantora britânica Amy Winehouse, falecida em 2011 com apenas aos 27 anos, volta a caminhar pela sua Camden Town, num vídeo divulgado ontem, 25 de Agosto, que acompanha "Tears Dry (Alternative Demo)", versão despida e inédita que antecipa a edição do 20.º aniversário de Back to Black.
O realizador é o leiriense João Pombeiro, artista visual e docente na Escola Superior de Artes e Design, da Universidade de Leiria e Oeste
O convite chegou da Island Records que, em 2023, já havia desafiado Pombeiro a realizar vídeo com que os U2 anunciaram o álbum Songs of Surrender, colagem animada que condensava 46 anos de banda em menos de um minuto, ao som de uma nova versão de "Beautiful Day".
Leia mais: João Pombeiro criou vídeo para os U2
Quando surge um projecto que possa ganhar vida com a linguagem visual do realizador, a directora criativa do estudo, Holly Williams, entra em contacto com ele.
Já recusou outras propostas, devido a prazos curtos ou por não se rever nelas. Mas esta não. "Só aceito se gostar da música. Não aceito como apenas um trabalho. É uma coisa que tem de fazer sentido", explica Pombeiro.
Newsletter ViverCultura e agenda da regiãoSubscrever
Recriar a vida através de um arquivo
Amy Winehouse deixou-nos há 15 anos. Não há imagens novas para filmar, e foi precisamente essa a questão central do trabalho do criativo.
A resposta foi a colagem digital e animação de fragmentos, tendo como matéria-prima o vídeo original de "Tears Dry on Their Own", realizado por David LaChapelle e filmado em Los Angeles em Maio de 2007.
"Tudo isto foi construído de coisas que consegui tirar de um plano ou outro. Ela caminha e eu faço-a atravessar um espaço... estes sítios familiares", descreve.
O percurso ilustrado neste "visualiser" leva-a por uma Camden reconstruída, onde os letreiros das lojas escondem easter eggs. Pequenas pistas para o espectador descobrir.
"Os vários letreiros das lojas são temas da discografia dela ou coisas curiosas sempre ligadas à sua vida", explica. Entre elas, encontamos uma referência ao motel de Los Angeles onde LaChapelle filmou o vídeo original.
O trabalho durou cerca de um mês intenso, e foi condicionado por orientações e restrições apertadas de direitos de imagem.
É que, ao contrário do que aconteceu com os U2, onde havia mais liberdade criativa, o espólio de Amy Winehouse é gerido de forma protectora pela família, pela fundação com o seu nome e pelos seus representantes legais.
Assim, alguns estabelecimentos reais que existem na verdadeira Camden tiveram de mudar de nome.
O pub The Hawley Arms, onde a cantora era presença habitual, manteve a sua identidade, mas um espaço vizinho foi rebaptizado como "Camden Castle". Cabe ao espectador perceber a diferença.
"A própria banda dela não pôde aparecer também por questões de licenciamento", recorda.
Os Dap-Kings, a banda que gravou Back to Black nos estúdios da Daptone, em Brooklyn, ficou de fora. "No corte final, os estúdios aparecem vazios", explica João Pombeiro sobre um episódio que acaba por reforçar o tom melancólico da gravação.
"Uma obra-prima"
Uma das reacções que mais marcaram o artista de Leiria veio de Londres.
"Cheguei a receber uma nota do pai da Winehouse e dos administradores do estate da Amy a dizer que acharam o vídeo uma 'obra-prima'. O pai [Mitch Winehouse] adorou que tivesse sido feito uma coisa tão artística, tão diferente com a filha", adianta.
A edição de aniversário de Back to Black sai a 23 de Outubro, quatro dias antes de o álbum original fazer vinte anos. Traz demos inéditas, lados B e um concerto no Paradiso de Amesterdão, gravado em Fevereiro de 2007. E pode trazer novo trabalho ao realizador: fica em aberto um segundo vídeo, mais simples, para outra demo do mesmo alinhamento.
Em breve, deverá haver mais novidades deste projecto que cruzou o trabalho de João Pombeiro com a vida e obra de Amy Winehouse.