Sociedade
Cinco projectos da Universidade de Leiria e Oeste que tem mesmo de conhecer
Ainda antes de o Politécnico de Leiria passar a universidade, dos seus laboratórios saíam já ideias com escala universitária
Desde o início de Agosto que o Politécnico de Leiria se tornou, formalmente, Universidade de Leiria e Oeste (ULO), ao fim de um processo longo e disputado, com pareceres desfavoráveis pelo caminho.
Um dos argumentos a favor da mudança de estatuto era, há anos, o de que a pesquisa aplicada feita em Leiria já tinha escala universitária.
Mas, afinal, o que era essa investigação e o que foi que ela produziu? O JORNAL DE LEIRIA pediu aos responsáveis das unidades de investigação da ULO que apontassem um exemplo ilustrativo do trabalho desenvolvido nos centros sob a sua alçada.
É o caso da garrafa de vinho mais leve do mundo.
Tem 260 gramas capazes de conter 75 centilitros e foi desenhada no LiDA -Laboratório em Design e Artes, do Politécnico de Leiria, criado em 2020 e composto por uma equipa maioritariamente de docentes da ESAD.CR, de Caldas da Rainha, com meia centena de doutorados e especialistas.
A produção fez recurso de processos tecnológicos avançados da Santos Barosa (Grupo Vidrala), unidade da Marinha Grande.
O projecto integra a agenda Embalagem do Futuro, liderada pela Nerlei CCI - Associação Empresarial da Região de Leiria - Câmara de Comércio e Indústria, que envolve 79 empresas, universidades e centros de investigação, num investimento global superior a 104 milhões de euros.
A garrafa esteve patente no Pavilhão de Portugal na Expo de Osaka, seguiu na delegação portuguesa à COP30 e, a 7 de Julho, recebeu em Essen, na Alemanha, a mais alta distinção do Red Dot Design Award.
O ensino superior em Leiria produziu também dois drones que se revezam na vigilância das zonas verdes e nunca param.
Enquanto um sobrevoa à procura de focos de ignição, o outro repousa numa doca que o faz aterrar, carregar a bateria e voltar a levantar voo sem intervenção de um operador.
A GNR acompanha o trabalho desde o início e quer usá-lo.
E produziu ainda o retrato mais detalhado até hoje dos hábitos de sono, de tempo passado a olhar para um ecrã e à mesa das crianças do concelho de Leiria, e um inquérito a 400 empresas da região Centro que concluiu que menos de uma em cada dez investe em inteligência artificial.
Mas vamos conhecer em detalhe estes e outros projectos de investigação da ULO.
A garrafa que perdeu peso mas não a resistência
A pergunta de partida dos investigadores era difícil de responder. "Sem comprometer a resistência, a funcionalidade ou a experiência de utilização", é possível aligeirar uma garrafa de vinho, reduzindo o seu impacto ambiental?
O LiDA e a Santos Barosa, iniciaram o projecto em Outubro de 2023 e concluiram-no em Junho deste ano.
O resultado foi uma garrafa com 260 gramas, que incorpora até 80% de vidro reciclado, reduz cerca de 40% das emissões de dióxido de carbono associadas à embalagem e permite acondicionar mais 115 unidades por palete.
Para lá chegar, a equipa redesenhou por completo a geometria do recipiente, desenvolveu paredes ultrafinas e retirou cinco milímetros ao gargalo e à rolha, mantendo a compatibilidade com as linhas industriais existentes.
"Cada redução de espessura ou alteração geométrica exigiu um equilíbrio rigoroso entre sustentabilidade, resistência e eficiência industrial", pode ler-se na descrição do trabalho.
Foi esta capacidade de reduzir recursos sem comprometer a integridade estrutural que convenceu o júri do Red Dot Awards.
Renato Bispo, director do LiDA, sublinhou mesmo, na entrega do prémio, o "potencial transformador da investigação em design", quando desenvolvida em conjunto com a indústria.
DBoidS. Drones vigilantes que aprenderam a não descansar
Quando o protótipo foi mostrado na Lagoa da Ervedeira, em Junho de 2025, os aparelhos tinham apenas 15 minutos de autonomia no ar.
Era um pé no travão que precisava de ser levantado.
Um ano depois, os investigadores do CIIC - Centro de Investigação em Informática e Comunicações criaram um sistema capaz de vigiar áreas florestais 24 horas por dia e sete dias por semana, graças a uma doca inteligente que assegura a aterragem, o carregamento e uma nova descolagem de forma automática.
O DBoidS - Sistema de Gémeos Digitais e Boids para a Prevenção de Fogos, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, foi desenvolvido entre 2022 e 2025 em parceria com o INESC TEC e coordenado pelo investigador António Pereira.
A ambição, como se explica na descrição do projecto, era ir além da simples detecção e vigilância.
"Mais do que detectar fogos, o sistema foi concebido para actuar também nas fases de previsão e prevenção."
O funcionamento parte da identificação das zonas de maior risco, cruzando dados meteorológicos, informação sobre o território e modelos de análise que calculam um índice global de incêndio.
A partir daí, os drones operam de forma coordenada, cada um com missão própria.
É uma ruptura com o modelo tradicional de um operador para cada aparelho, já que apenas um centro de operações pode comandar uma frota inteira.
Os gémeos digitais (Digital Twins) do nome do sistema é uma referência às réplicas virtuais do território que permitem preparar missões antes de sair para o terreno, simular cenários de propagação e reconstituir depois o que originou o fogo.
Esta capacidade serve tanto a operação como a investigação das causas. Recorrendo a inteligência artificial, o sistema calcula ainda a velocidade de propagação das chamas e faz uma previsão de quais serão as zonas de maior perigo.
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Drones de Leiria vigiam a floresta 24 horas por dia
A arquitectura do sistema foi pensada para se ligar aos sistemas já em uso e para isso ajudou o facto de, ao longo do trabalho, a equipa ter contado com o acompanhamento da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, da GNR, da Polícia Judiciária, do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas e da Câmara Municipal de Leiria.
Está a decorrer uma nova fase desta iniciativa com o Comando Territorial de Leiria da GNR, tendo em vista a futura implementação operacional.
INOV.AM. 60 produtos novos e 73 entidades à mesa
É a maior operação das cinco que aqui apresentamos. Chama-se INOV.AM - Inovação em Fabricação Aditiva, Agenda Mobilizadora e foi financiado pelo PRR.
Entre Julho de 2022 e Junho deste ano, reuniu 73 entidades, 61 empresas e 12 instituições do sistema científico e tecnológico, num dos maiores consórcios nacionais dedicados à inovação industrial.
Na Universidade de Leiria e Oeste representou um investimento superior a 6,1 milhões de euros, canalizado sobretudo para o seu CDRSP - Centro para o Desenvolvimento Rápido e Sustentado do Produto, na Marinha Grande, reforçando laboratórios e alargando a colaboração com empresas nacionais.
Estavam previstos 40 novos produtos, processos e serviços, mas foi possível chegar a quase 60, à medida que as empresas identificavam novas oportunidades.
Soma-se ainda 15 patentes submetidas, 55 publicações científicas, cerca de 200 contratações qualificadas e a criação da Academia INOV.AM, plataforma nacional de ensino e certificação em fabrico aditivo, com pólos distribuídos pelo País, incluindo a universidade em Leiria.
No centro de tudo, a impressão 3D industrial, que, há muito, deixou de ser uma técnica de prototipagem.
Permite produzir componentes mais leves e resistentes, reduzir o desperdício de matérias-primas e encurtar os prazos de desenvolvimento. Hoje, é usada na produção de moldes, na aeronáutica, na fileira automóvel, na saúde, no desporto, na cortiça, na cerâmica e nos bens de consumo.
Em Julho, a ULO assinou ainda um acordo de cooperação científica com o Singapore Centre for 3D Printing, da Nanyang Technological University, um dos centros de referência mundial nesta área.
ATIVA+Saúde. Uma análise a 500 crianças de Leiria
O ATIVA+Saúde, promovido pelo ciTechCare- Centro de Inovação em Tecnologias e Cuidados de Saúde, em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa e a Câmara Municipal de Leiria, propõe compreender os hábitos alimentares, a actividade física, o sono, o tempo de ecrã e a literacia em saúde das crianças e dos jovens em contexto escolar.
Começou em Março de 2024 e só terminará em Março de 2028.
A primeira fase avaliou mais de 500 alunos, entre os 9 e os 13 anos, de três escolas do concelho de Leiria. Foi, segundo os investigadores, um dos primeiros estudos em Portugal a analisar a literacia em saúde nesta faixa etária com instrumentos validados para o efeito.
O retrato que saiu desta avaliação tem duas faces.
De um lado, 57,9% dos participantes revelam elevada adesão à dieta mediterrânica e 60,4% praticam uma modalidade desportiva para lá das aulas de educação física.
Do outro, 44,9% apresentam risco de obesidade, 14,9% risco cardiovascular elevado e 18,9% usam ecrãs mais de três horas por dia.
E há ainda uma questão que a equipa destaca como relevante. É que, embora 81,8% revelem níveis adequados de literacia em saúde, apenas 34,7% atingem níveis elevados de literacia alimentar e nutricional.
Segue-se a fase que a equipa considera "decisiva".
"O verdadeiro valor do projecto reside naquilo que acontece depois do diagnóstico."
Esta parte da intervenção será construída com alunos, professores, profissionais de saúde, famílias e designers, para que as soluções respondam às necessidades concretas de cada escola.
Os instrumentos de avaliação validados ficarão disponíveis para outras escolas portuguesas.
EDDE-DIGITAL24. Empresas da região investem pouco no digital
É um retrato e uma auscultação ao tecido empresarial da região.
O EDDE-DIGITAL24, do CARME - Centro de Investigação Aplicada em Gestão e Economia, realizado no âmbito do Programa de Assistência Técnica Portugal 2030, mediu o grau de maturidade digital de mais de 400 empresas de sete distritos da região Centro, em especial às PME.
A conclusão é a de "uma realidade de contrastes".
Nove em cada dez empresas reconhecem os benefícios da digitalização, mas a utilização de tecnologias mais avançadas continua a esbarrar nos custos de implementação, na falta de conhecimento técnico, na resistência à mudança e na dificuldade de integrar novos sistemas com os existentes.
Muitas chegam a subaproveitar as ferramentas de que já dispõem.
As médias e grandes empresas apresentam níveis mais elevados de utilização tecnológica, enquanto muitas micro e pequenas dão ainda os primeiros passos.
Já têm presença online e programas de gestão, mas raramente sistemas de gestão da relação com clientes, análise de dados, computação na nuvem ou soluções colaborativas.
Menos de 10% das empresas da região Centro investem em soluções de inteligência artificial, ainda que reconheçam o seu potencial e prevejam investir a curto prazo.