Economia

Conflito no Médio Oriente coloca sector agrícola sob (ainda mais) pressão

13 jun 2026 10:30

Do combustível aos plásticos de embalamento, o conflito entre os Estados Unidos da América e o Irão, desde Fevereiro, com as limitações à passagem no estreito de Ormuz, tem acrescentado pressão a um sector agrícola já bastante afectado pela tempestade Kristin

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Claúdia Gameiro

Os últimos meses não têm sido favoráveis ao sector agrícola nacional, que, de crise em crise, vai sobrevivendo e procurando encontrar soluções para os múltiplos desafios que se colocam às explorações. À parte o clima, que, mesmo em épocas mais estáveis, apresenta sempre as suas incógnitas, acrescem a concorrência dos mercados externos e as regras ambientais e de sustentabilidade europeias, nem sempre fáceis de cumprir.

Os agricultores contactados pelo JORNAL DE LEIRIA não escondem a ansiedade e a aparente falta de alternativas. A tecnologia ajuda a resolver problemas, mas a crise energética provocada pelo conflito entre os Estados Unidos da América e o Irão, que sucedeu a uma tempestade destrutiva e a semanas de chuva intensa, é mais um golpe doloroso, que aumenta ainda mais as incertezas.

O gasóleo agrícola “está com valores absurdos”, começa por comentar Filipe Ribeiro, director da Associação dos Agricultores da Região de Alcobaça, ao JORNAL DE LEIRIA. O aumento do preço dos combustíveis atinge também os seus derivados, como os plásticos, essenciais para o embalamento, e, de forma indirecta, os produtos químicos e os fertilizantes. Neste último caso, “já tínhamos comprado, pelo que penso que não vai haver tanto impacto”, comenta o responsável.

O cenário é preocupante e, sendo este um sector primário com limitada capacidade para repercutir aumentos de custos nos preços de venda, os produtores dispõem de pouca margem para mitigar os impactos no curto prazo. O aumento de preços, explica, far-se-á sentir sobretudo na distribuição. “Somos dos maiores contribuintes para o Fundo Ambiental”, reflecte Filipe Ribeiro, frisando que está na altura de o Governo começar a olhar para os agricultores de outra forma e para os diversos factores de pressão que estão a condicionar as produções. “Há também as opções históricas da União Europeia, que também não nos favorecem”, adianta

 

A agenda ambiental da União Europeia é “ambiciosa”, reconhece o agricultor, mas também traz máquinas “mais dispendiosas” e que nem sempre correspondem às expectativas, assim como todo o tipo de regulações com as quais não se consegue competir face aos métodos de produção, por exemplo, do Mercosul — Mercado Comum do Sul (Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai).

O acordo de comércio livre, que entrou em vigor a 1 de Maio entre a União Europeia e o Mercosul, é mais um factor de pressão para o sector agrícola, que se vê limitado a vários níveis. “O risco nesta área é cada vez maior”, sublinha. “Os burocratas europeus tomam decisões sem que haja alternativa, sobrepondo-se a política à técnica”, desabafa.

“A União Europeia foi-nos exigindo muita coisa”, sendo o acordo com o Mercosul considerado um concorrente desleal para um sector que tem procurado cumprir as metas ambientais. Será o consumidor a, inevitavelmente, sofrer as diferentes consequências, reflecte. Do Vale do Lis ao Oeste O sentimento de desânimo é generalizado em toda a região, em particular nas zonas mais afectadas pela tempestade Kristin.

Na Sociedade Agrícola do Vale do Lis, Fábio Franco também começa por salientar o preço dos combustíveis, cujo aumento ronda “os 90%”, afirma. “Os fertilizantes subiram bastante e nota-se alguma escassez em algumas fórmulas à base de potássio”, adianta. Acrescem os custos com o transporte de legumes, proporcionais ao aumento dos combustíveis. Depois, continua, há o aumento dos preços dos plásticos para as estufas, o que constitui outro factor de pressão numa área que se encontra em reconstrução devido à passagem da tempestade Kristin, que destruiu as estruturas. “É um aumento em toda a linha”, sublinha.

Num sector em que as margens são definidas “de cima para baixo”, acabam por ser os agricultores a suportar também o peso da inflação. Com o impacto das tempestades do início do ano e a instabilidade no Médio Oriente, aguardam-se as prometidas ajudas do Governo, que tardam em chegar. “Ficamos num dilema: vale a pena produzir? São muitas as adversidades, é muito trabalho. E isto leva à desistência e ao endividamento”, reflecte.

Na Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Lis, o administrador- delegado, Henrique Damásio, constata que a crise energética surge precisamente no momento em que os campos precisam de ser preparados para as culturas. Um “impacto brutal” que prejudica o produtor e para o qual não existem grandes alternativas. “Há países que têm outra política de combustíveis, como Espanha, que reduziu o IVA” para o sector agrícola, adianta. Uma solução que ajudou os agricultores no país vizinho, mas que aumenta ainda mais a concorrência aos produtores portugueses.

Para fazer face às vicissitudes, a solução no Vale do Lis tem passado pelo recurso à tecnologia. Segundo enumera Henrique Damásio, procura-se “reduzir ao máximo as mobilizações do solo com recurso a tractores; uso de drones para sementeiras, tratamentos fitofarmacêuticos e adubações”. Estas soluções não são possíveis em todo o processo, constata o responsável, mas é a agricultura de precisão que mais tem ajudado a reduzir os custos de produção.

No Oeste, o agricultor Carlos Marques afirma ao JORNAL DE LEIRIA que sentiu sobretudo o impacto nos preços dos embalamentos para as grandes superfícies, que “duplicaram”. Não tendo sentido tanto o impacto da tempestade Kristin, os campos estiveram algum tempo sem poder ser trabalhados devido às chuvas. “Estamos a tentar absorver” os aumentos, reflecte, rindo quando lhe perguntam sobre as perspectivas para 2026. “É a pergunta do milhão”, afirma.

“A nossa expectativa é que o conflito no Médio Oriente termine e que as coisas voltem ao normal, estabilizando assim os preços”, adianta. “Neste momento, tudo é incerto. Vai ser um ano difícil devido às intempéries e ao conflito. O que esperamos é que tudo volte ao normal”, conclui.

Tecnologia no combate à crise energética

“O fósforo, o azoto… Onde há constrangimentos no local de fabrico, isso acaba por repercutir-se nos custos da produção agrícola”, reflecte sobre o tema Firmino Cordeiro, director- geral da AJAP — Associação dos Jovens Agricultores de Portugal. “Mas basta aumentar o combustível para que os custos aumentem para os agricultores”, constata.

As soluções para este tipo de problemas não são muitas, reconhece, daí o interesse cada vez maior por temas como a economia circular, a reciclagem ou a compostagem. “Quanto mais aproveitarmos os resíduos de produção, melhor será o produto final”, explica, constatando que a tecnologia tem sabido apostar em “biosoluções” para melhorar o solo e em “bioeficiência”, preservando os nutrientes das plantas. A investigação e a inovação são, por isso, essenciais e “têm de estar ao serviço da agricultura”.