DEPRESSÃO KRISTIN
Da monocultura ao mosaico, transformar a paisagem passa também por apadrinhar uma árvore
Atendendo que a maioria das espécies danificadas se encontram em terrenos privados, a autarquia irá accionar os mecanismos legais que foram criados no pós-2017
Apadrinhar uma árvore ou uma área definida, alterar uma paisagem de monocultura para mosaico e optar por misturar espécies com crescimento de ritmo diferentes são alguns dos desafios do projecto RePlantar Leiria, que foi apresentado no Dia Mundial da Árvore.
Com a Villa Portela como cenário, onde simbolicamente foi apadrinhado um cepo com o nome de Kristin, o vereador com o pelouro do Ambiente explicou que as florestas actuais assentam no eucalipto e no pinheiro.
“Vamos ter uma floresta bastante mais diversa, assente em mosaicos agrícolas e florestais o que dará um equilíbrio maior à gestão agrícola, florestal e parte urbana”, adiantou Luís Lopes.Para executar o plano, que terá três grandes fases, a autarquia precisa de contar com a “vontade e o compromisso” dos proprietários e ter “capacidade para intervir no território, quer ao nível do financiamento quer da capacidade técnica em termos de maquinaria e de pessoas”.
A fase zero está a decorrer até Maio e passa por desbloquear caminhos florestais, para ser possível circular, sobretudo, em caso de incêndios. Segue-se a retirada da madeira das árvores que se encontram no chão, mas também de outras que terão de ser abatidas.
A fase seguinte será a recuperação dos solos e preparação para a plantação. Já neste momento, seguir-se-á a gestão da floresta e depois a sua manutenção. Haverá plantação de árvores com 20 centímetros, outras com 10 anos, mas também apenas sementes lançadas à terra.
“Vamos ter de adequar ao tipo de solo, à capacidade de retenção de água, de regarmos e cuidarmos daquele território”, afirmou, ao alertar que, durante este período, haverá muito mato a crescer e árvores que vão morrer.
Atendendo que a maioria das espécies danificadas se encontram em terrenos privados, a autarquia irá accionar os mecanismos legais que foram criados no pós-2017, “que permitem fazer uma agregação de áreas públicas e privadas”.
“Não podemos simplesmente entrar num território florestal e começar a retirar madeira. Temos de ter enquadramento legal. A grande limitação é o financiamento, que tem de existir”, acrescentou.
Luís Lopes constatou que avançar com este modelo de gestão do território, é o “maior desafio” em termos de alteração da paisagem. “Estamos a falar de uma operação nunca antes vista e que demorará garantidamente muitos anos.”
Envolvimento de todos
O vereador defendeu ainda o envolvimento de toda a comunidade, não só para perceber as opções na recuperação do território, mas para sentir pertença.
“Iremos disponibilizar a curto prazo uma plataforma onde as pessoas podem seleccionar áreas, identificar as espécies que vão ser plantadas num determinado local”, com a respectiva explicação e depois acompanhar a sua plantação.
A tempestade Kristin destruiu ou danificou cerca de oito milhões de árvores no concelho, numa área de 7.615 hectares (ha), sendo que o território de Leiria tem um total de 28.066 ha.
Luís Lopes destaca que esta zona ultrapassa toda a área ardida nos últimos anos.Além da questão estética da paisagem, cujo impacto só será visível dentro de várias décadas, o autarca considerou que um dos desafios é a relação térmica no espaço urbano. Sem árvores sentir-se-á mais humidade, mais entrada de vento e menos sombras.
“Vamos levar algum tempo até conseguir encontrar respostas artificiais para ter esta ventilação térmica e alcançar o mesmo conforto dentro do espaço urbano, agora com menos árvores”, reforçou.