Economia

Há mais jovens a aparecer nos mercados locais e a cultivar a própria horta

31 mai 2026 08:00

A concorrência é feroz, mas, os mercados locais continuam a marcar presença nas cidades e os comerciantes notam um aumento da clientela mais jovem, que quer cultivar a sua horta

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Apesar do aumento de jovens, comerciantes notam quebra de clientes
Ricardo Graça
Inês Gonçalves Mendes

À segunda-feira de manhã, a pacata vila da Batalha ganha mais algum movimento e, junto à zona desportiva, vende-se de tudo um pouco: desde fruta e legumes até patos, galinhas ou sementeiras.

Biológico é a palavra de ordem e quem vai para comprar sabe que a qualidade está garantida. Os dias chuvosos podem retrair alguma clientela, mas nem por isso o mercado abranda. O chão em terra batida, em parte do recinto, também não parece afastar a população que procura os ingredientes mais frescos à primeira hora da manhã.

Carla Rosário, juntamente com a mãe, apesar de residir em Leiria, é cliente frequente no mercado da Batalha. E refere de imediato que tem visto mais jovens a escolher o local para as compras semanais. Não só para adquirir legumes e verduras, mas também à procura de produtos agrícolas para a sua própria horta.

“Vê-se mais pessoas a comprar para fazer a sua própria horta em casa. Há pessoas que conheço que não cultivavam e agora estão a cultivar. Até porque a oferta existente acaba por ser mais cara”, repara.

Esta cliente também escolhia as mudas que queria aplicar no seu quintal e explica que este é um processo muito mais simples do que utilizar sementes. “Acaba por nos facilitar o processo. É mais rápido do que comprando as sementinhas. Normalmente, as sementes, para estarem assim, têm de ser plantadas em Outubro ou Novembro e passar o Inverno para estarem deste tamanho. Assim, temos o trabalho facilitado e a qualidade é diferente. É mais natural”, resume.

Acompanhada pela mãe, Carla Rosário diz que também escolhe os mercados locais para comprar legumes e frutas. “A qualidade é diferente. Não é tão bonita, é normal, porque não levou o banho de brilho, mas tem outra qualidade”. Mesmo se o preço for superior ao praticado pelos supermercados, acredita que a qualidade também se paga e faz valer a pena.

A mãe, Idalina Santos, acrescenta: “as coisas biológicas, plantadas por nós, são melhores”.

Rui Maia partilha da mesma opinião. O vendedor da empresa Sofia Inês Marques, que produz e vende hortícolas, raízes, frutícolas e derivados, garante que tem recebido clientes mais jovens. “Agora, vêm mais. Não sei se é pelos hipermercados terem as coisas mais caras. Os produtos estão mais caros e o pessoal mais jovem está a aderir a fazer a horta em casa”.

Contudo, nota hábitos diferentes dos clientes mais novos. “Compram em menos quantidade”, revela, uma vez que “alguns vivem em apartamentos e metem os vasos nas varandas”.

Há 17 anos que Rui Maia se dedica a este negócio e, actualmente, além do mercado na Batalha também vende em Ourém, Tomar, Vieira de Leiria e Marinha das Ondas.

Uma vida que o faz conhecer cada espécie que vende, especialmente para mudas, e, sempre que lhe perguntam, explica como e quando cada uma deve ser plantada.

Estacionamento prejudica mercado

Em Leiria, o edifício que acolhe o Mercado Municipal foi modernizado em 2022, com um investimento de 4,6 milhões de euros, procurando tornar o espaço mais atractivo à população.

José Venança ainda é do tempo em que o mercado se realizava no Mercado de Sant’Ana. “[Vendo] desde que nasci. A minha mãe vendia no Mercado de Sant’Ana e ela andou de barriga comigo. Nasci e comecei logo a vir. Vinha com os meus pais, casei em 1973 e comecei a vir com a minha namorada, como costumo dizer”, conta, numa terça-feira, dia em que a afluência é mais fraca.

Nota, sobretudo, a diminuição do número de clientes que, mesmo recebendo mais jovens, continua a não se equiparar aos anos 60 e 70, quando começou. “Antigamente, em Sant’Ana, aquilo era tudo ao monte, vendia-se muito. O triplo do que se vende hoje. Havia menos gente a vender também”.

José Venança acredita que as pessoas “se desabituaram a ir aos mercados” e que as grandes superfícies conseguem atrair mais clientes, até porque estão abrigadas do mau tempo e oferecem estacionamento gratuito.

Tudo o que vende na sua banca, desde a couve lombarda aos coentros, passando pelo alho francês e os espinafres, é semeado e tratado por si e pela família.

Porque as horas que estão a vender ao cliente são as que menos cansam. Por trás, estão as horas passadas no quintal, a adubar, a evitar o caracol e a lesma, a arrancar as ervas daninhas para fazer crescer os vegetais com técnica e sabedoria.

No seu quintal, conta José Venaça, há sempre que fazer e “tudo tem uma técnica” para que o resultado final seja o pretendido: uma horta farta e saudável, capaz de fornecer para vender na banca, como tem feito há mais de 50 anos.

Lamenta apenas que os comerciantes colocados do lado de fora do mercado tenham de apanhar “um bocadinho de frio” durante o Inverno.

Pouco tempo depois de conversar com o JORNAL DE LEIRIA, José Venança recebeu na sua banca Ana Luísa Bento, de 30 anos, que não dispensa uma ida ao mercado, principalmente quando precisa de vegetais.

“Venho, principalmente, quando quero fazer sopas, mais para os vegetais. Têm um sabor diferente.” Residente em Leiria, explica que gosta de aproveitar os sábados quando o dia de mercado se conjuga com a Feira das Velharias, ao longo do percurso Pólis.

“Em termos de preço, normalmente, é melhor. É mais chato a parte de não dar para pôr o contribuinte na maior parte das coisas. Mas o sabor está aqui”, garante.

Esta jovem nota uma quebra na afluência desde a tempestade e, entre as desvantagens, nomeia o estacionamento envolvente. “Hoje vi-me aflita. Tentei estacionar e estava tudo cheio. Antes, pelo menos à terça-feira, metia o carro ao lado das piscinas. Agora, meteram lá os autocarros. Fui estacionar para o [Edifício] 2000, que é pago, mas nem toda a gente pode”, alerta.

Este é, para Rui Marques, o principal problema do Mercado Municipal de Leiria. “O fim deste mercado vai ser a falta de estacionamento”, acredita.

A seguir as pisadas dos pais com o comércio de mel e derivados, nota mais jovens a visitar o espaço, mas também turistas. “Passam aqui turistas do mundo todo. Estes produtos já foram para a Nova Zelândia, Austrália, Califórnia, Japão, e antes da guerra vinham muitos russos”.

Todas as terças e sábados constrói uma montra onde o mel é rei e apostou na modernização da marca para tornar os seus produtos mais atractivos, com maior oferta, como licores, conjuntos para prendas ou utensílios que fazem lembrar os tempos antigos. No Inverno, também continua a tradição dos pais, com a venda de kiwis.

“Ao sábado, a partir de Novembro, vendo aqui entre 250 a 300 quilos de kiwis. Mas, também digo, se vivesse disto, já tinha morrido à fome. Isto é um gosto”.

E é este gosto e a tradição de gerações que continuam a levar os agricultores até aos mercados, mesmo com menos clientes.