Viver

Hádoc. Em Canções de Uma Terra em Lume Brando escuta-se o som de fundo de uma nação em estado de excepção permanente

15 jun 2026 07:13

Esta terça-feira, no Teatro Miguel Franco

hadoc-em-cancoes-de-uma-terra-em-lume-brando-escuta-se-o-som-de-fundo-de-uma-nacao-em-estado-de-excepcao-permanente
O conflito na Ucrânia já ultrapassa a duração da primeira guerra mundial
mubi.com

Parceria JORNAL DE LEIRIA e Hádoc - Festival de Cinema Documental.
Texto de Nuno Granja, coordenador e programador do Hádoc.

Alguns esperam que, naturalmente, um filme documental sobre a guerra se debruce sobre as imagens que os telejornais não exibem. Ou porque não servem o propósito de angariar audiências ou porque são demasiado violentas para a hora do jantar. Mais ainda num conflito como o da Ucrânia, cuja duração ultrapassa já a da I Guerra Mundial. Olha Zhurba, realizadora ucraniana, responde, de alguma forma, a esta ideia, mas não exatamente da forma que se esperaria. Não nos mostra o combate, a fúria dos projéteis, o heroísmo dos soldados. Mostra-nos (e acima de tudo dá-nos espaço para observar ) o que vai sendo consumindo enquanto é atravessado pelo conflito: o território, as infâncias perdidas, a sombra das ausências, o espetáculo das almas em carne-viva.

Canções de Uma Terra em Lume Brando (Songs of Slow Burning Earth, 2024) é um título que engana. A música destas canções é um zumbido lúgubre, o som de fundo de uma nação em estado de exceção permanente, uma espécie de ruído branco omnipresente até ser obliterado pelo peso do silêncio.

Resultado de dois anos de filmagens, umas vezes perto da linha da frente, outras em zonas mais afastadas do conflito bélico, o resultado pode comparar-se a um diário audiovisual da normalização do apocalipse: filas intermináveis de automóveis, estações de comboio superlotadas onde famílias se separam com a eficiência de uma linha de montagem, crianças que brincam aos soldados num pátio enquanto são sobrevoadas por caças. Mas a verdadeira força do filme está naquilo que Zhurba não filma. Há um código de ética rigoroso em ação: nunca vemos cadáveres. A realizadora prefere filmar a luz a entrar numa morgue, o sol que insiste em bater nas paredes brancas enquanto, atrás de um vidro fosco, mulheres aguardam para reconhecer os corpos dos seus homens.

Uma opção que a autora explica, em entrevista: "Essa luz era a única coisa bonita naquela sala". E é esta tensão mal-resolvida, entre o horror e a beleza, entre a urgência do testemunho e a contenção da forma, que torna o filme tão perturbador.

Zhurba transforma o trauma num ritual partilhado, e fá-lo com uma disciplina quase ascética. Esta abordagem é, ela própria, uma forma de resistência. Num mundo onde os algoritmos e o imediatismo nos empurram para o choque fácil, Canções de Uma Terra Em Lume Brando exige paciência, exige observar, exige que se sinta o peso de cada segundo. Exige ao espectador que demonstre coragem, e que ceda o seu tempo e atenção. É algo cada vez mais raro de conseguir e de obter, mas é também o que torna este filme tão especial e precioso.

O futuro, na Ucrânia de Zhurba, é uma ideia ténue. Mas ainda assim persiste. E isso, talvez, seja o mais próximo da esperança que se pode reclamar.

16 de Junho, Teatro Miguel Franco, Leiria, 21h30
Canções de Uma Terra Em Lume Brando
De Olha Zhurba
Songs of Slow Burning Earth| 95 min | Ucrânia, Suécia, França, Dinamarca | 2024 | m/14

* International Documentary Film Festival Amsterdam 2024 – Seleção Oficial
* European Film Awards 2026 – Nomeado Melhor Filme
* Riga International Film Festival 2024 – Vencedor Melhor Filme
* Filmfest Bremen 2025 – Vencedor Melhor Filme Internacional

Sinopse

"Quando me perguntam o que é a guerra, respondo sem hesitar: são nomes".

Este verso do poeta ucraniano Maksym Kryvtsov, morto em combate aos 33 anos, abre caminho para o diário audiovisual de Olha Zhurba — uma imersão de dois anos nos abismos da guerra de larga escala na Ucrânia. Mas aqui não há generais nem estratégias. Há paisagens, encontros ocasionais, diálogos raros, silêncios que pesam mais do que qualquer discurso. Há os acordes desafinados do pânico nos primeiros dias da invasão, gravados em chamadas de emergência que ouvimos sobre fundo negro antes de qualquer imagem surgir. E há, depois, a lenta e perturbadora transformação desses acordes numa quietude entorpecida — a aceitação da morte e da destruição como parte do quotidiano.

Canções de Uma Terra em Lume Brando recusa o óbvio. Sem narração, sem entrevistas, sem imagens de arquivo dos telejornais, Zhurba constrói um arquivo emocional que não mostra sangue nem explosões — mas mostra tudo o resto: o vazio deixado por quem partiu, o cansaço nos olhos dos que ficaram, o humor que ainda resiste, a vida que teima em rebentar por entre os escombros. A guerra, aqui, é aquilo que sobra depois de as câmaras se irem embora.

E depois há o som. A paisagem sonora desenhada por Yaroslav Tatarchenko move-se entre o ruído ambiente e o silêncio absoluto, entre as buzinas dos comboios e os monólogos interiores que nunca chegam a ser pronunciados. É um filme que se escuta tanto quanto se vê — e que nos obriga a ouvir o que preferíamos ignorar.

Presente nos mais conceituados festivais de cinema, Canções de Uma Terra em Lume Brando não é apenas mais um documentário sobre a guerra na Ucrânia. É um testemunho sobre aquilo que acontece quando o inferno se torna quotidiano — e sobre a estranha, teimosa, frágil beleza de continuar humano.