Viver

Palavra de honra | Sinto vergonha alheia daqueles que sabem sempre tudo antes de toda a gente

11 mai 2026 09:30

Rita Rosa, Psicomotricista

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Já não há paciência... para o pó do pinheiro, as manchas de bolor nos tectos, para as pessoas que respondem pelos outros sem ninguém lhes pedir, para os fascistas disfarçados de Power Ranger e, honestamente, para o funk brasileiro.

Detesto... areia na cabeça, pés frios, engomar roupa a ferro, dióspiros, mentirosos compulsivos, salamandras a aparecerem-me de surpresa no caminho, pisar caracóis sem querer, filmes de terror, vinho (não consigo aprender a gostar) e falsos beatos que levantam a bandeira do bem, mas que facilmente têm dores nas costas. 

A ideia... de conseguir viver sem trabalhar era muito porreira. Ser autossubsistente apenas com o pensamento de o conseguir, seria algo inovador que eu gostaria, quem sabe um dia, de implementar na vida das pessoas. Viver sem correr, mesmo quando se gosta de correr.

Questiono-me se... vou viver até os músculos do "adeus" sucumbirem à gravidade do tempo, se alguma vez vou conseguir dizer que não de forma mais eficiente e se os pirilampos vão ficar em vias de extinção por causa das palermices humanas.

Adoro... gatos e cães, dias de chuva e o cheiro da terra molhada no outono, os abraços dos meus filhos, correr na serra quando o frio faz chorar os olhos, escrever sem pensar, ouvir música aos berros no carro, ler até ficar com dores no pescoço, arrancar ervas daninhas do jardim e dançar.

Lembro-me tantas vezes... do meu pai, dos meus avós, do pão quente com açúcar e azeite, das tardes a alimentar formigueiros com torrões de açúcar, das voltas de bicicleta e dos joelhos esfolados, dos domingos a ver Fórmula 1 e de escrever poemas à lareira enquanto comia maçãs.

Desejo secretamente... que de um dia para o outro os ditadores do mundo terminem o prazo de validade e sucumbam à reciclagem e à incineração.

Tenho saudades... do tempo sem telemóveis.

O medo que tive... do mar ainda hoje me atormenta. São pazes difíceis de fazer.

Sinto vergonha alheia... das pessoas sem noção, da falta de educação disfarçada de pseudoengraçados, daqueles que sabem sempre tudo antes de toda a gente: os espertos com cursos online de 25 horas.

O futuro... deixo-o acontecer no tempo dele. Faço um esforço para não passar muito tempo a dar-lhe crédito porque corro o risco de me esquecer de estar no presente.

Se eu encontrar... sempre o equilíbrio e a serenidade no meu discurso, por favor, venham comigo ao médico: ou estou louca ou tenho Alzheimer.

Prometo... não prometer nada: já sou menina para ter névoas mentais e, o mais certo, é esquecer-me do que prometi.

Tenho orgulho... na minha família, da educação exemplar da minha cadela Charlie,  que já não faz xixi no tapete, de não desistir mesmo quando é difícil e de conseguir rir de mim própria.