DEPRESSÃO KRISTIN
“Uma orquestra de destruição”. Como os sons da tempestade vão deixar marcas e memórias
Vento, destroços, sirenes. Na experiência da depressão Kristin, a paisagem sonora torna-se um mapa de prejuízos e emoções
O fundador da Sound Particles, empresa que a partir de Leiria vende software de áudio para a indústria do cinema, incluindo estúdios em Hollywood, explica que os sons de baixa frequência (os mais graves) “tendem a propagar-se mais” e tipicamente “percorrem distâncias maiores”.
“Não só os ouvimos como muitas vezes os sentimos no próprio corpo”, comenta Nuno Fonseca.
O engenheiro e investigador dá como exemplo “os ventos” e “impactos” durante a tempestade provocada pela depressão Kristin, que, provavelmente, “vão ficar na memória”.
Na fonoteca do temporal, Nuno Fonseca destaca mais dois inputs: “as motosserras um pouco por todo lado” e “os geradores”.
Vera Ferreira, que experienciou o evento na Marinha Grande, junta ainda o “uivar” das rajadas mais fortes e depois o efeito bolha causado pelas falhas de água, electricidade e comunicações, como que a confirmar os 4 minutos e 33 segundos de John Cage: “Aquele silêncio ensurdecedor, que incomoda”.
Na madrugada de 28 de Fevereiro, a empresária sentiu-se “como se alguma coisa fosse entrar pela casa adentro”. E a seguir, com a manhã, recorda “a agitação dos carros, as pessoas muito frenéticas” e “as sirenes”.
Tudo “muito assustador” e “violento”.
“O som parecia que vinha de todas as frentes, intenso, uma força bruta incontrolável, provocando uma sensação de impotência, confusão, incerteza do que se estava a passar lá fora, mas muito medo e insegurança”, reforça.
“O prédio abanou todo, parecia um terramoto”, conta Vânia Colaço, noutra zona da Marinha Grande, onde a passagem da depressão Kristin atirou chaminés para cima de carros estacionados nas ruas. “Pareciam bombas”.
A artista plástica fala de “uma orquestra de destruição”, em que sobressai “a melodia do vento” e “os outros instrumentos dentro daquela sinfonia” são “muros a cair”, “chapas” e “madeira a partir”.
“Tenho o pátio cheio de coisas que não sei de onde vieram”, descreve.
A investigadora Raquel Castro assinala que “o vento é um dos elementos naturais cujo som tanto pode provocar calma e prazer, como susto e terror, dependendo da sua força”. E questiona, a pensar na população mais afectada pelo mau tempo: “De que forma o que ouviram perturbou ou ajudou a prevenir alguma coisa?”
O vento na madrugada do temporal, e depois as sirenes a soar nas ruas durante horas, horas e horas, as lâminas das motosserras a cortarem árvores caídas por toda a parte, o silêncio das casas sem luz, água e comunicações, isoladas do mundo, como numa bolha.
“As pessoas associam automaticamente todas essas características acústicas à maneira como viveram as coisas, ao que sentiram”, salienta a fundadora do festival Lisboa Soa e curadora do ciclo Fontes Sonoras que se realiza nos arredores de Leiria.
A recolecção do que ouvimos mantém-se acessível em “memórias” ligadas a uma “experiência concreta”. Há o durante – o sopro da depressão Kristin, estilhaços, telhas e estruturas a voar, vidros partidos – e a azáfama posterior quando estamos focados na reconstrução.
Raquel Castro explica que é expectável que os sons venham a funcionar como gatilhos, para alguns habitantes de Leiria, Marinha Grande, Pombal e de outros concelhos especialmente atingidos. “Se calhar, quando ouvirem qualquer coisa a colapsar ou um vento forte demais”, porque têm a vivência de uma “noite trágica”.
“Há vários estudos, relacionados com contextos de guerra, de catástrofes, em que as pessoas relatam que nunca mais conseguiram ouvir um foguete a explodir. Essas memórias, é difícil desaparecerem”, aponta. Têm a capacidade de nos devolver a um lugar e instante.
“A paisagem sonora não é neutra”, pelo contrário, “de alguma forma materializa a perda das pessoas, aquilo que se perdeu fica registado, quase que gravado”, acrescenta Raquel Castro. “O som envolve-nos completamente, é por isso que afecta tanto”.