Opinião

Da Gronelândia a Leiria

24 jan 2026 10:22

Se ficarmos presos ao destino de “fornecedores eficientes” de um setor em retração, seremos vítimas colaterais de cada choque geopolítico

Durante décadas, aprendemos a chamar “globalização” a uma ideia quase romântica, uma ideia de comércio livre, cadeias de valor longas, alianças estáveis e paz. Hoje, o mundo parece mais um tabuleiro de póquer, onde as cartas são tarifas e a mesa é o Ártico. O episódio recente em torno da Gronelândia — com ameaças de tarifas norte-americanas dirigidas a países europeus para pressionar a Dinamarca e a própria Europa — não é apenas uma excentricidade diplomática, é um sinal de que a coerção económica voltou a ser linguagem corrente entre aliados. A ironia é cruel.

A Gronelândia, que para muitos europeus era uma ilha branca no mapa, tornou-se bem um símbolo da nova disputa por território, segurança e matérias-primas críticas. E, como sempre, quando o centro treme, a periferia sente primeiro. A Europa debate-se com energia cara, investimento tímido e uma indústria automóvel que deixou de ser a locomotiva para passar a ser o vagão mais pesado do comboio.

Nos últimos dois anos, o setor europeu de componentes automóveis ultrapassou a barreira dos 100 mil empregos perdidos — não por falta de trabalho, mas por falta de rumo – uma transição tecnológica mal digerida e concorrência externa mais agressiva. Leiria conhece esta história por dentro. O nosso ecossistema industrial cresceu a servir cadeias automóveis europeias, como moldes, plásticos, componentes, engenharia aplicada.

Quando a Europa hesita entre proteger o passado e construir o futuro, as encomendas tornam-se intermitentes, os investimentos adiam-se e a confiança evapora-se. É aqui que a conversa sobre “o retorno industrial” deixa de ser slogan e passa a ser urgência. Bruxelas começou a reagir, com políticas que procuram acelerar a produção europeia de tecnologias limpas e tornar a descarbonização um motor de competitividade.

Mas uma estratégia industrial não é um comunicado; é energia mais barata, escala, capital paciente, simplificação regulatória e capacidade para transformar ciência em produto. Para Leiria, a pergunta não é se a indústria volta à Europa — é se voltará para nós. Se ficarmos presos ao destino de “fornecedores eficientes” de um setor em retração, seremos vítimas colaterais de cada choque geopolítico.

Se, pelo contrário, usarmos o ADN da região (engenharia, rapidez, pragmatismo) para subir na cadeia de valor — mais software e eletrónica, mais produto próprio, mais integração com energia, defesa, saúde e mobilidade elétrica — então o caos externo pode ser, paradoxalmente, um acelerador interno.

O que hoje parece longe — tarifa por uma ilha gelada — amanhã pode ser tarifa por chips, baterias, aço ou dados. Num mundo onde a Gronelândia entra na fatura das tarifas, o luxo não é planear; é não o fazer, e este é o momento de fazer.

Texto escrito segundo as regras do novo Acordo Ortográfico de 1990