Opinião
Da invisibilidade
Na obra de Carla Simón, a narrativa constrói-se na proximidade, na escuta, na atenção ao detalhe, na dor de contar uma história
Antes de prosseguir com um inusitado (mas felizmente curto) texto sobre filmes espanhóis e tendo em conta que pouco tenho a acrescentar a tudo o que tem vindo a ser escrito nestas páginas sobre o pós-Kristin, gostava apenas de constatar o óbvio: no último mês percebemos todos de uma forma definitivamente dramática que Leiria existe, mas existe mais para uns do que para outros. Uns somos nós, os leirienses, os outros o resto do País.
Uma espécie de invisibilidade à vista de todos que, curiosamente, é também uma espécie de fio condutor de três dos filmes de que mais se tem falado nos últimos meses deste lado da fronteira: “Sirat”, de Oliver Laxe, “Romería”, de Carla Simón e “Los Tortuga”, de Belén Funes.
Spoiler alert: acho “Sirat” absolutamente insuportável. Um exercício de estilo intenso, sim, mas pleno de pretensiosismo e esvaziado de ideias. Ambição estética superlativa e construção competente de uma atmosfera hipnótica, são suficientes para criar uma obra maior?
No caso do filme de Laxe, não creio e, por isso, dei por muito melhor empregue o meu tempo com outros dois filmes que, mais do que pedirem contemplação, exigem posicionamento. “Romería” e “Los Tortuga” não gritam mais alto que “Sirat”, mas assumem de forma clara e inequívoca que o cinema ainda pode ser um espaço de fricção moral e emocional.
Na obra de Carla Simón, a narrativa constrói-se na proximidade, na escuta, na atenção ao detalhe, na dor de contar uma história tão pessoal e íntima como a da ascensão e queda dos seus próprios pais apanhados pela epidemia de heroína que nos anos 80 varreu parte de uma geração.
Já em “Los Tortuga” a aparente lentidão não é apatia, é resistência. A intimidade narrativa transforma-se num instrumento crítico. Ao acompanhar personagens presas entre memória e sobrevivência, o filme obriga-nos a olhar para fracturas sociais, como a imigração, a precariedade e a habitação, sem filtros nem paternalismos.
Em todos os três, no entanto, um factor comum: personagens que tentam, da melhor maneira possível (e “against all odds”, como diria Phil Collins), combater a invisibilidade a que foram relegadas por eventos ou circunstâncias imprevisíveis.
Como Leiria e nós, os leirienses.