Opinião

O Ócio 

27 fev 2025 16:23

O ócio não é indolência, nem preguiça, nem lazer, nem pasmaceira e muito menos falta de inteligência

O que estás a fazer, filha? - Estou a ver à janela. E podia assim ficar por muito tempo, com o silêncio que se fazia dentro do meu quarto a deixar-me ouvir à distância muito do que se passava na rua, que eu observava por detrás dos vidros que se iam repetidamente embaciando com o bafo quente da minha respiração.

No Verão, esse incómodo era substituído pela tepidez do sol e brisa agradável numa janela aberta, mas o encanto não era o mesmo; ficava distraída e mais participante do que via e ouvia, sem a mesma capacidade de observação que o estar por detrás dos vidros me dava.

Desde que me lembro, a observação ociosa das minudências do mundo é uma forma de estar que me vai muito bem, e mais o faria se pudesse. Seja olhar o cair da noite numa rua quase deserta, seja uma paisagem campestre, seja o mar, a montanha ou a actividade citadina de um dia de semana, seja o ócio praticado num sofá, olhando o lume na lareira acesa ou observando cada pormenor de uma sala mesmo que sobejamente conhecida, o prazer da observação não orientada para um fim específico é, a um tempo, fonte de grande tranquilidade e uma muito prazerosa experiência de pensamento à solta.

O ócio é uma importante actividade sem nenhum esforço, uma aprendizagem sem qualquer sistematização, um trabalho de pesquisa dirigido a nenhum assunto. O ócio não é indolência, nem preguiça, nem lazer, nem pasmaceira e muito menos falta de inteligência.

Na nossa civilização, compelida à produtividade, à apresentação de resultados e a toda uma contabilidade de realizações que assim mede e avalia as capacidades de cada indivíduo, o ócio é palavra errada para falar do que gostamos de fazer.

Será bem aceite dizer-se que não se está a fazer nada apenas se isso significar atirarmo-nos para um sofá após uma maratona de trabalho árduo, seja físico ou intelectual, mas nunca se nos confessarmos adeptos do ficarmos quietos porque sim, e durante o tempo que quisermos, ou pudermos.

Mas a civilização cresce com o pensamento, e o pensamento carece de sossego para que possa acontecer. Os filósofos e os criadores precisam absolutamente desse ócio, mas dele precisam também todos os humanos comuns porque, sendo uma atitude de contemplação própria do ser humano, e de percepção, de intuição e de descoberta, o ócio é parte importante do seu desenvolvimento.

A prática do ócio pressupõe que seja uma livre escolha, que seja um fim em si mesmo, e que provoque uma satisfação emocional, resultando assim na criação, e fruição, de uma riqueza interior que certamente trará frutos para as realizações pessoais e para o relacionamento de cada indivíduo com os outros.

As crianças precisam de ser ensinadas a experimentar o ócio, libertando-as da escravatura do aqui e agora que a quase permanente actividade e o imediatismo do lazer lhes traz; e os adultos precisam de praticar o ócio que lhes permita uma atitude curiosa e receptiva para o que os rodeia e que, avaliando como o recebem, possam melhor apreciar o mundo, ser mais criativos, e conhecer-se a si próprios.