Opinião
O privilégio de receber 159,47 euros por mês
Não chega para arrendar um quarto, não chega para a alimentação de um mês, não chega para a ilusão de que o sistema protege quem mais precisa
O Rendimento Social de Inserção (RSI) faz, por estes dias, 30 anos de existência.
Pesa 1% no orçamento da Segurança Social e pode parecer uma percentagem irrisória, apesar de, para quem o recebe, poder significar a diferença entre a construção de uma dignidade renovada e a queda no abismo.
Esta semana, explicamos em que consiste o antigo "rendimento mínimo garantido", com o exemplo de José Conde que foi beneficiário e que, com a ajuda desta prestação, refez a vida.
Trabalhou a vida inteira e perdeu tudo. Viu a casa arder e teve de recomeçar do zero. Arrumou carros e trabalhou na construção civil até que, em desespero, pediu orientação à associação InPulsar, de Leiria, onde encontrou quem o ajudasse a reerguer.
Ou, usando a expressão da moda: a ser "resiliente".
Durante quatro anos, o RSI foi a escora na reconstrução da vida de José, que tirou um curso de jardinagem e, hoje, com 66 anos, é cantoneiro na Câmara Municipal de Leiria.
A vida continua dura, mas o subsídio que alguns tanto criticam, por entenderem que entreajuda e humanidade são palavras vazias para esquecer após bater-se com a mão no peito na missa, fez a diferença no seu caso.
A referência do RSI é de 247 euros mensais e pode ser inferior, pois depende do tamanho do agregado familiar.
Com o número de beneficiários a diminuir desde 2022 no distrito, o valor médio deste contributo na região alargada de Leiria é de 159,47 euros por pessoa.
Não chega para arrendar um quarto, não chega para a alimentação de um mês, não chega para a ilusão de que o sistema protege quem mais precisa, mas chega para ser usado como sinónimo de preguiça e de privilégio injusto.
Bastaria, contudo, algum bom senso e dois minutos de pesquisa fora das redes sociais para perceber, como diz o sociólogo Paulo Teixeira, escutado pelo JORNAL DE LEIRIA, "que quem menos tem é quem é mais controlado".
O RSI, sublinha por seu turno a responsável da InPulsar, Lisete Cordeiro, é das medidas "mais fiscalizadas" do sistema de segurança social português, e todos os números e estudos indicam que quem abusa não é a norma, mas quem precisa é a regra.
O grau de evolução de uma sociedade mede-se pelo apoio aos seus mais frágeis.
Um 1% do orçamento da Segurança Social é mais do que uma escora numa vida, é a diferença entre a indigência e a "resiliência".