Opinião

Saber desenhar

4 jun 2026 21:30

Devemos parecer ter a idade que temos. Nem mais nem menos que a idade que é a nossa por direito

Há quem não saiba desenhar. É uma coisa que chateia a quem não sabe, porque não consegue compor em linhas o que a ideia lhe representa e consegue ver dentro de si.

Mas quem é que não sabe desenhar?! Toda a gente sabe desenhar! Até os putos. Dizem os entendidos. Todos já foram gaiatos. Há muito tempo. E então todos sabiam desenhar. Se calhar estão a ficar velhos.

A questão é que não se sentem assim, mas deviam. Ficava-lhes bem. Devemos parecer ter a idade que temos. Nem mais nem menos que a idade que é a nossa por direito. Há quem gostasse mesmo de desenhar. Tudo. Em todo o lado. Esquissos a carvão, aguarelas, pastel, para os mais sabedores a óleo.

Em papéis, nas telas, tecidos e paredes. Há quem recorde com saudade o tempo em que era criança e gostava de desenhar. Faziam-no em todo o lado. Nos pedacitos de papel que apanhavam a jeito, nos cartuchos coloridos da mercearia – desmontavam-nos com todo o cuidado, tinham dois lados, um rugoso, o outro liso, ensebado –, nas margens dos jornais velhos, e às vezes, só de vez em quando, nuns cadernos de folhas brancas e que diziam na capa “sebenta”.

Os menos afortunados tinham, quanto muito, uma caixa Viarco com seis cores: verde, castanho, amarelo, vermelho, azul e roxo.

De cartão e com dois putos à janela a soprar por tubinhos e a fazer bolas de sabão. E um outro lápis que era vermelho por fora e escrevia preto. Número 2. Quando perdiam as afiadeiras roíam a ponta dos lápis para fazer o bico. Borracha não tinham.

Quando se enganavam desenhavam a partir do erro e deixavam que saíssem coisas esquisitas. Agora têm uma caixa Caran d’Ache com mais de cinquenta cores, uma por cada ano e muitos meses desde que lhes disseram que não sabiam desenhar, e uma afiadeira de metal com lâmina suplente.

Borracha teimam em não comprar. Os erros não se apagam e a vida, de qualquer modo, sai-lhes sempre esquisita. Os Caran d’Ache estão intactos. Tal como os compram. Não sabem desenhar. Guardam os lápis para quando um dia souberem.

Mas, por cada dia que passa, por cada ano somado a outro, mais sentem a impossibilidade de saber algum dia desenhar. Ao lado há sempre quem desenhe melhor, com mais cores na caixa de lápis, com a certeza de saber desenhar da maneira perfeita e como deve ser, alguns até porque são portadores da estética vigente.

Sobra a quem não sabe desenhar continuar a fazê-lo como bem lhe apetece, sem rebuço, só porque sim, apenas porque sabe que deve viver de acordo com o que pensa e sente.